# Glicação é um processo silencioso que acelera o envelhecimento da pele
Existem coisas que acontecem no corpo de forma completamente despercebida – sem dor, sem avisos visíveis, silenciosa e continuamente. A glicação é exatamente uma delas. É um processo bioquímico sobre o qual a maioria das pessoas nunca ouviu falar, embora participe diretamente na velocidade com que envelhecemos. Não apenas por dentro, mas principalmente na superfície – na pele, que é o reflexo mais visível do que acontece nas profundezas das células.
De forma simplificada, a glicação ocorre quando moléculas de açúcar – glicose ou frutose – se ligam de forma descontrolada a proteínas ou gorduras no organismo. Este processo não requer nenhuma enzima nem mecanismo de ativação. Simplesmente acontece. O resultado são os chamados AGEs (Advanced Glycation End-products), em português produtos finais de glicação avançada, que se acumulam nos tecidos e causam o seu dano progressivo. O nome AGEs é por si só eloquente – em inglês significa "idades" ou "envelhecimento" e é exatamente isso que estas substâncias fazem no organismo.
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O que acontece com a pele quando o açúcar ataca o colagénio
A pele é em grande parte constituída por colagénio e elastina – duas proteínas que lhe conferem firmeza, elasticidade e a capacidade de "regressar à sua forma original". São precisamente estas proteínas o principal alvo da glicação. Quando o açúcar se liga a elas, formam-se estruturas rígidas e frágeis que perdem a sua flexibilidade natural. O colagénio, que antes era elástico como borracha, começa a comportar-se mais como papel velho – quebradiço, inflexível e suscetível a danos.
O resultado manifesta-se na pele de forma muito concreta. As rugas aprofundam-se, a pele perde luminosidade, surge um tom acinzentado ou amarelado e a expressão geral do rosto parece mais cansada e mais velha do que corresponderia à idade real. Não se trata de alterações superficiais que pudessem ser corrigidas com um creme ou sérum. A glicação atinge as camadas mais profundas da derme, onde as fibras de colagénio estão armazenadas, e os danos que provoca são muito difíceis de reverter.
Dermatologistas e investigadores na área do envelhecimento cutâneo alertam cada vez mais para este processo. Por exemplo, um estudo publicado no British Journal of Dermatology confirmou que a acumulação de AGEs na pele se correlaciona significativamente com os sinais visíveis de envelhecimento – independentemente da idade. Por outras palavras, uma pessoa de trinta anos com elevada ingestão de açúcar pode ter uma pele comparável à de uma pessoa de quarenta anos com hábitos alimentares mais saudáveis.
É interessante notar que a glicação não é exclusivamente uma questão de diabéticos ou pessoas com distúrbios metabólicos. Ocorre em toda a gente – a questão é apenas a velocidade e a intensidade. Estas dependem da quantidade de açúcar que o organismo processa, mas também de outros fatores como o grau de stress oxidativo, a exposição à radiação UV ou a inflamação crónica.
Açúcar na alimentação, AGEs na pele – como interromper esta cadeia
Compreender a glicação leva naturalmente à questão: é possível parar este processo, ou pelo menos abrandá-lo? A resposta é sim – e começa no prato. Uma dieta com índice glicémico elevado, rica em açúcar branco, hidratos de carbono refinados, bebidas açucaradas e alimentos industrialmente processados, aumenta dramaticamente os níveis de glicose no sangue. Quanto mais elevadas e frequentes forem estas oscilações, mais oportunidades tem o açúcar de se ligar às proteínas.
Não é necessário tornar-se um adepto ortodoxo de nenhuma dieta para que a situação melhore. Basta perceber o que está a acontecer. Por exemplo, uma mulher de trinta e cinco anos que toma cereais açucarados todas as manhãs, um café com xarope à tarde e um copo de vinho doce ao jantar pode estar inadvertidamente a manter os seus níveis de açúcar no sangue em constante oscilação – e ao mesmo tempo a perguntar-se por que razão a sua pele parece cansada e sem vida, apesar de usar cremes caros regularmente. A causa não está na superfície. Está no interior.
Existem, no entanto, passos concretos que podem mudar a situação. A redução do açúcar refinado e a transição para alimentos com baixo índice glicémico – como leguminosas, cereais integrais, vegetais e proteínas de qualidade – diminui a frequência das reações de glicação. Igualmente importante é a regularidade das refeições, que evita picos súbitos de glicose.
Para além da alimentação, a preparação térmica dos alimentos também desempenha um papel importante. Menos conhecido é o facto de os AGEs não se formarem apenas dentro do organismo – também os ingerimos diretamente nos alimentos. Os alimentos preparados a altas temperaturas, especialmente fritos, grelhados ou assados até ficarem dourados, contêm quantidades significativamente mais elevadas de AGEs do que os alimentos cozidos, estufados ou preparados a vapor. Uma investigação publicada no Journal of the American Dietetic Association demonstrou que a redução de uma dieta rica nestes AGEs pré-formados pode diminuir a carga total destas substâncias no organismo.
Como observou o Dr. Robert Lustig, endocrinologista americano e autor do livro Fat Chance: "O açúcar não é apenas uma caloria vazia – é um veneno metabólico que danifica o organismo a um nível que não pode ser visto a olho nu." Estas palavras podem soar dramáticas, mas a bioquímica da glicação é precisamente o que Lustig descreve – um dano lento e invisível que só se manifesta com um desfasamento temporal.
Para além da alimentação, existem outras formas de abrandar a glicação. Os antioxidantes desempenham um papel fundamental, pois o stress oxidativo acelera significativamente a glicação. A vitamina C, a vitamina E, o resveratrol ou a coenzima Q10 estão entre as substâncias que ajudam a neutralizar os radicais livres e, assim, reduzem indiretamente a velocidade dos processos de glicação. O exercício físico regular melhora a sensibilidade à insulina e ajuda a manter níveis estáveis de açúcar no sangue – o que constitui uma das formas mais eficazes de travar a glicação.
Um lugar interessante neste contexto é ocupado também pela carnosina, um dipéptido naturalmente presente no tecido muscular, que possui propriedades antiglicação comprovadas. As investigações sugerem que é capaz de capturar grupos carbonilo reativos antes que estes consigam danificar as proteínas. Encontra-se na carne vermelha, mas também está disponível em forma de suplemento alimentar – e cada vez mais marcas de cosméticos a incorporam em produtos focados nos cuidados anti-aging.
Um capítulo à parte é o dos cuidados externos com a pele. Embora nenhum creme consiga reverter a glicação nas camadas profundas da pele, existem ingredientes que podem pelo menos atenuar a situação. A niacinamida, o extrato de mirtilo, o extrato de gengibre ou a já mencionada carnosina estão entre os ingredientes que os dermatologistas recomendam como parte de uma rotina cosmética antiglicação. É importante, no entanto, entender estes cuidados como um complemento, e não como substituto da abordagem interna – ou seja, da alimentação e do estilo de vida.
Vale a pena mencionar que a radiação UV acelera significativamente a glicação. A radiação solar promove a formação de radicais livres, que são um desencadeador direto do stress oxidativo, e este intensifica as reações de glicação. O uso regular de proteção SPF não é, portanto, apenas uma questão de prevenção do cancro de pele ou das manchas de pigmentação – é também uma proteção ativa da rede de colagénio contra os danos da glicação. Esta perspetiva pode ser nova para muitos, mas a comunidade dermatológica enfatiza-a cada vez mais.
A glicação revela-se assim como um ponto de interseção de vários temas que, à primeira vista, parecem não estar relacionados – nutrição, exercício físico, envelhecimento, cuidados com a pele e proteção solar. Não se trata de uma tendência passageira nem de um alarmismo para hipocondríacos. Trata-se de um mecanismo bioquímico real com um impacto concreto na aparência e no funcionamento do nosso corpo e da nossa pele.
Um estilo de vida saudável que inclua uma alimentação equilibrada com baixo teor de açúcar refinado, exercício físico suficiente, sono de qualidade e cuidados conscientes com a pele não é apenas uma questão estética. É um investimento direto no abrandamento de processos como a glicação – processos que decorrem silenciosamente, mas cujos resultados acabam por ser muito visíveis. E é precisamente por isso que vale a pena prestar-lhes atenção antes que os seus vestígios comecem a refletir-se no espelho.
A pele é um órgão vivo que reage a cada decisão – o que comemos, como dormimos, como nos movemos, ao que nos expomos. A glicação é apenas um dos muitos exemplos de que o verdadeiro cuidado com a pele não começa na casa de banho, mas na cozinha e nos hábitos quotidianos. E essa é uma mensagem que vale a pena recordar.