Por que é a saúde feminina tão complexa e como ouvir o seu corpo quando ele deixa de cooperar
Todas as mulheres conhecem isto. O período em que o corpo parece parar, recusa funcionar segundo as regras habituais e envia sinais que não são fáceis de compreender. Cansaço que não desaparece nem depois de um longo sono. Humores que mudam mais depressa do que o tempo em abril. Pele que, de um dia para o outro, decide viver a sua própria vida. E, além disso, a sensação de que tudo o que até então funcionava – a alimentação, a rotina de exercício, os rituais favoritos – deixou de ter efeito. É precisamente nesses momentos que a maioria das mulheres se pergunta: o que fazer quando o corpo não coopera?
A resposta a esta pergunta não é simples nem unívoca, porque o corpo feminino é um sistema incrivelmente complexo, no qual as hormonas desempenham o papel principal. E são precisamente as hormonas que costumam ser aquele maestro silencioso que decide como a mulher se sente, como aparenta, como dorme e como lida com o desgaste diário. O problema é que sobre as hormonas ainda se fala relativamente pouco na sociedade e, quando se fala, é frequentemente apenas no contexto da puberdade, da gravidez ou da menopausa. No entanto, o equilíbrio hormonal influencia cada dia da vida de uma mulher – independentemente da idade.
Tomemos, por exemplo, a história de Kateřina, uma especialista em marketing de trinta anos, de Brno. Toda a vida foi ativa, praticou desporto, comeu de forma relativamente saudável e sentia-se bem. Depois veio um período em que começou a ganhar peso, apesar de não ter mudado nada na sua alimentação. De manhã acordava exausta, durante o dia sofria com oscilações de humor e à noite não conseguia adormecer. Consultou o médico de família, que lhe disse que os seus resultados estavam "dentro da norma". Mas Kateřina sabia que algo definitivamente não estava normal. Levou quase um ano até chegar a uma endocrinologista, que detetou uma ligeira resistência à insulina e níveis desequilibrados de cortisol. Histórias como a de Kateřina não são, aliás, uma exceção – são antes a regra de que não se fala em voz alta.
Quando se diz "saúde feminina", muitas pessoas pensam automaticamente em consultas ginecológicas ou contraceção. No entanto, a saúde feminina é um conceito muito mais amplo. Abrange o bem-estar mental, a qualidade do sono, o estado do microbioma intestinal, a função da tiroide, os níveis das hormonas sexuais, a resistência ao stress e dezenas de outros fatores interligados. A Organização Mundial da Saúde alerta há anos para o facto de que as diferenças de género na medicina continuam a ser insuficientemente tidas em conta, tanto na investigação como na prática clínica. As mulheres reagem ao stress de forma diferente dos homens, metabolizam os medicamentos de forma diferente, vivenciam a dor de forma diferente. E, apesar disso, grande parte da investigação médica baseou-se historicamente sobretudo em sujeitos masculinos.
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As hormonas como bússola invisível
O sistema hormonal funciona como um ecossistema extraordinariamente sensível. Basta que um valor se desvie e todo o sistema o sente. Estrogénio, progesterona, testosterona, cortisol, insulina, hormonas da tiroide – todas estas substâncias comunicam entre si e influenciam-se mutuamente. Quando uma mulher está sob stress prolongado, o corpo produz quantidades excessivas de cortisol, o que pode suprimir a produção de progesterona. Níveis baixos de progesterona podem então levar a ciclos menstruais irregulares, insónias, ansiedade ou problemas de fertilidade. E este é apenas um dos muitos cenários possíveis.
O interessante é que o desequilíbrio hormonal nem sempre se manifesta de forma dramática. Frequentemente trata-se de mudanças subtis e insidiosas que a mulher inicialmente atribui ao cansaço, à idade ou "apenas" ao stress. Pele seca, cabelo a ficar mais fino, desejo aumentado de doces, sensação de inchaço, diminuição da libido, dificuldades de concentração – tudo isto podem ser sinais de que o equilíbrio hormonal está perturbado. O problema surge quando a mulher ignora estes sinais ou os banaliza, porque "toda a gente está cansada de vez em quando".
Como compreender então o corpo feminino quando aparentemente não coopera? O primeiro e mais importante passo é aprender a escutar. Parece um cliché, mas na prática significa prestar atenção aos padrões. Observar como o corpo muda ao longo do ciclo menstrual. Reparar em que dias a energia está no auge e quando, pelo contrário, diminui. Registar que alimentos fazem bem ao corpo e quais não. Existe uma série de aplicações para monitorizar o ciclo, como por exemplo Clue ou Flo, que podem ajudar a detetar padrões recorrentes e fornecer informações valiosas não só para a própria mulher, mas também para o seu médico.
O segundo passo é deixar de se comparar. As redes sociais estão cheias de histórias sobre como alguém "resolveu" os seus problemas hormonais com um único suplemento, uma única dieta ou um único plano de treino. A realidade é que cada corpo feminino é único e o que funciona para uma mulher pode ser completamente inadequado para outra. A abordagem individual não é um luxo – é uma necessidade. É precisamente por isso que é tão importante encontrar um médico ou especialista que esteja disposto a dedicar tempo a um exame aprofundado e que não se contente com a resposta "os seus valores estão dentro da norma", quando a mulher evidentemente não se sente bem.
E depois há a questão do estilo de vida, que pode parecer banal, mas cujo impacto no equilíbrio hormonal é fundamental. O stress crónico é um dos maiores inimigos do sistema hormonal feminino. O corpo não distingue entre o stress de um prazo de trabalho e o stress de uma ameaça à vida – reage da mesma forma, com produção de cortisol e adrenalina. Quando esta resposta ao stress é ativada repetida e prolongadamente, o corpo entra num estado que os especialistas designam por sobrecarga de stress crónico. E é precisamente este estado que está por trás de muitos problemas aparentemente não relacionados, desde problemas digestivos, passando por insónias, até manifestações cutâneas.
O sono é outro pilar que costuma ser subestimado. Durante o sono, o corpo regenera-se, produz hormona do crescimento, regula os níveis de leptina e grelina (hormonas que influenciam a fome e a saciedade) e "reinicia" o sistema nervoso. Estudos publicados na revista Sleep confirmam repetidamente que o sono insuficiente ou de má qualidade tem um impacto direto no equilíbrio hormonal, no metabolismo e no sistema imunitário. Apesar disso, o sono é frequentemente a primeira coisa que as mulheres sacrificam em prol do trabalho, da família ou das obrigações sociais.
Quando "apenas" mudar o estilo de vida não é suficiente
É importante dizer uma coisa com franqueza: por vezes, a mudança de estilo de vida não é suficiente. Existem condições que requerem cuidados médicos especializados – a síndrome dos ovários poliquísticos (SOP), a endometriose, as disfunções da tiroide, a disfunção adrenal ou a menopausa precoce são apenas alguns dos diagnósticos que não podem ser resolvidos apenas com alimentação saudável e meditação. E não há nada de errado nisso. Pelo contrário, a capacidade de reconhecer quando é hora de procurar ajuda é uma demonstração de força, não de fraqueza.
Como disse a médica americana e autora de bestsellers sobre saúde feminina, Dra. Sara Gottfried: "As suas hormonas não são o seu destino – mas primeiro precisa de as compreender para as poder influenciar." Este pensamento resume perfeitamente a essência de toda a problemática. Compreender o próprio corpo não é um objetivo que se atinge de uma vez por todas. É um processo para toda a vida, que exige paciência, curiosidade e disposição para se adaptar às mudanças.
E mudanças na vida de uma mulher são realmente muitas. A puberdade, uma eventual gravidez e parto, o período de amamentação, a perimenopausa, a menopausa – cada uma destas fases da vida traz uma reestruturação hormonal fundamental, à qual o corpo tem de se adaptar. O que funcionava aos vinte pode não funcionar aos trinta. O que ajudava aos trinta pode ser completamente insuficiente aos quarenta. É precisamente por isso que é tão importante não se agarrar a uma única abordagem e estar aberta a mudanças.
Ultimamente fala-se cada vez mais do chamado estilo de vida cíclico – uma abordagem que respeita as fases do ciclo menstrual e adapta a alimentação, o exercício e o descanso a cada uma delas. Na fase menstrual, quando os níveis hormonais estão no ponto mais baixo, o corpo tende naturalmente para o descanso e a regeneração. Na fase folicular, quando o estrogénio sobe, a energia aumenta e surge a vontade de experimentar coisas novas. A fase ovulatória é o período de maior vitalidade e comunicabilidade. E a fase lútea, quando domina a progesterona, é ideal para concluir projetos e para a introspeção. Esta abordagem não é, evidentemente, uma solução universal, mas para muitas mulheres representa uma forma de compreender melhor o ritmo do seu corpo e de deixar de lutar contra os seus ciclos naturais.
Não se pode ignorar também o papel da nutrição. O microbioma intestinal, ou seja, a comunidade de bactérias que vive no trato digestivo, desempenha um papel fundamental no metabolismo das hormonas, especialmente do estrogénio. Existe até um conjunto específico de bactérias intestinais chamado estroboloma, que participa diretamente na regulação dos níveis de estrogénio no corpo. Uma alimentação rica em fibra, alimentos fermentados, proteínas de qualidade e gorduras saudáveis pode contribuir significativamente para o equilíbrio hormonal. Pelo contrário, alimentos altamente processados, consumo excessivo de açúcar e álcool podem perturbar o microbioma intestinal e, assim, influenciar indiretamente todo o sistema hormonal.
É precisamente na área da nutrição e do estilo de vida que existe um enorme espaço para decisões conscientes. A escolha de alimentos de qualidade, cosméticos naturais sem disruptores endócrinos, produtos de limpeza ecológicos e materiais que são gentis para o corpo e para o meio ambiente – tudo isto são passos que podem parecer pequenos, mas que, no conjunto, têm um impacto significativo na saúde global. Os disruptores endócrinos, ou seja, substâncias químicas que perturbam o sistema hormonal, encontram-se numa quantidade surpreendente de produtos do dia a dia – desde embalagens de plástico, passando por cosméticos convencionais, até têxteis sintéticos. A Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA) disponibiliza no seu site informações abrangentes sobre estas substâncias e o seu impacto na saúde humana.
E então, o que fazer quando o corpo não coopera? Antes de mais, não entrar em pânico e não se culpar. O corpo não coopera por uma boa razão – está a tentar comunicar que algo precisa de mudar. Pode ser mais descanso, uma abordagem diferente à nutrição, redução da carga de stress, um exame especializado ou simplesmente um tratamento mais gentil consigo mesma. O corpo feminino não é uma máquina que deve funcionar sem pausa ao mesmo rendimento. É um organismo vivo e mutável, que merece atenção, cuidado e respeito.
Talvez seja agora o momento certo para deixar de tentar vencer o corpo e começar a escutá-lo. Porque no momento em que uma mulher compreende o seu corpo – os seus ciclos, necessidades e sinais – deixa de o ver como um inimigo e começa a entendê-lo como um aliado no caminho para uma saúde verdadeira.