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# Lugares esquecidos no apartamento nos estressam mais do que imaginamos

Cada apartamento tem os seus cantos esquecidos. Lugares que existem na planta, pelos quais se paga renda ou prestação de hipoteca, mas que na prática servem apenas como reservatórios de pó e objetos esquecidos. O canto atrás do sofá, o espaço debaixo da cama, a prateleira acima do frigorífico ou o misterioso armário no corredor – todos estes lugares partilham uma coisa: quase ninguém os visita conscientemente. E ainda assim os temos. Ainda assim os mantemos, ocasionalmente passamos por eles e, na maior parte das vezes, agimos como se não existissem. Porquê e o que nos dizem estas zonas mortas sobre a forma como vivemos?

A resposta não é tão simples como pode parecer. Por detrás de cada canto esquecido esconde-se uma história – sobre hábitos, sobre compras, sobre planos que não se concretizaram ou sobre coisas que um dia nos dissemos que "trataremos um dia destes". Psicólogos e designers de interiores dedicam-se cada vez mais a este fenómeno, porque os espaços não utilizados numa habitação têm uma influência direta no bem-estar e na saúde mental dos seus habitantes.


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Por que surgem zonas mortas numa habitação

Comecemos pelo mais básico: como é que esses lugares surgem afinal? Raramente é intencional. Ninguém, ao mudar-se, pensa "vou deixar este canto ao abandono". Acontece gradualmente, de forma imperceptível, como sedimento que se deposita no fundo de um lago. Primeiro pousa ali uma coisa – talvez uma caixa de sapatos que "por enquanto" não tem lugar. Depois junta-se-lhe uma revista antiga, um cabo de extensão e um saco da farmácia. Ao fim de um mês, o canto transforma-se num depósito funcional de lixo, que o cérebro deixa de registar como problema porque deixa de o registar de todo.

Este fenómeno tem até um nome psicológico – habituação. O cérebro está evolutivamente programado para ignorar estímulos que não mudam. Se uma caixa permanece no mesmo lugar durante semanas e meses, deixa de ser "visível" para a nossa perceção. Torna-se parte do fundo, como o papel de parede ou o caixilho da janela. Investigações no domínio da psicologia ambiental, como os trabalhos publicados no Journal of Environmental Psychology, mostram repetidamente que a desordem e os espaços não utilizados aumentam os níveis de cortisol – a hormona do stress – mesmo quando não nos apercebemos conscientemente disso.

Para além da psicologia, a arquitetura e a disposição dos apartamentos também desempenham um papel. Muitos apartamentos de construção pré-fabricada, que constituem uma parte significativa do parque habitacional checo, foram projetados com corredores, nichos e cantos sem uma função clara. São vestígios de épocas em que a habitação era planeada de forma diferente – em que se contava com outras necessidades das famílias, com outros equipamentos domésticos. Hoje, estes espaços estão funcionalmente abandonados, mas fisicamente ainda presentes.

Outro fator é a acumulação de objetos, que é inevitável na sociedade de consumo atual. A habitação checa média contém, segundo várias estimativas, milhares de objetos – e a maioria deles não é utilizada ativamente. As coisas acumulam-se mais depressa do que nos livramos delas, e o resultado são armários entupidos, prateleiras abarrotadas e a prateleira acima do frigorífico coberta de caixinhas de medicamentos e adaptadores de viagem que ninguém consegue identificar.

Quais os lugares numa habitação mais frequentemente abandonados

Seria ingénuo pensar que se trata de um fenómeno excecional. Pelo contrário – existem lugares que são quase universalmente abandonados nas mais diversas habitações, culturas e tamanhos de apartamentos.

O espaço debaixo da cama é um exemplo clássico. Formalmente serve como espaço de arrumação, mas na prática costuma estar cheio de caixas esquecidas ou de cobertores antigos que "podem vir a ser úteis um dia". Raramente alguém vai lá intencionalmente. Raramente alguém sabe o que lá está exatamente.

O topo dos armários e das prateleiras tem uma situação semelhante. Tudo o que ultrapassa a altura dos olhos deixa de existir. Não é por acaso que as cadeias de retalho colocam os produtos mais vendidos precisamente à altura do olhar – o que está acima ou abaixo vende-se pior. O mesmo princípio aplica-se em casa. O que está fora do campo de visão, está fora da mente.

O canto atrás da porta é outro espaço morto universal. Seja na sala, no quarto ou na casa de banho, o espaço que fica escondido atrás das portas abertas torna-se automaticamente um depósito. Pendurem-se lá sacos, casacos que não cabem no armário ou coisas que aguardam "tratamento amanhã".

Depois há o corredor como um todo – um espaço que deveria ser a entrada acolhedora do lar, mas que em muitos apartamentos funciona como um contentor para tudo o que não tem outro lugar. Sapatos, chapéus de chuva, sacos de compras, encomendas ainda por abrir. A terapeuta e especialista em organização doméstica americana Julie Morgenstern escreveu uma vez: "A forma como o seu espaço de entrada se apresenta reflete a forma como se sente na sua vida." E embora soe a clichê, há surpreendentemente muita verdade nisso.

Uma categoria especial são as varandas ou terraços, que nos meses de inverno entram numa espécie de modo de hibernação. Deixam de ser lugares para sentar e tornam-se armazéns ao ar livre – com bicicletas, velhos vasos de ervas aromáticas e sacos de plástico cheios de não-sei-o-quê.

Flat-lay of commonly forgotten and neglected household items on a white surface

O que fazer – e por que vale a pena resolver isto

Talvez surja a questão: se estes lugares não incomodam ninguém e ninguém os utiliza, por que se dar ao trabalho? A resposta reside precisamente nessa aparente invisibilidade. As investigações confirmam repetidamente que a desordem no ambiente circundante, mesmo a que é percecionada inconscientemente, reduz a capacidade de concentração, aumenta a ansiedade e impede a sensação de tranquilidade em casa. O lar deveria ser um lugar de regeneração, não mais uma fonte de sobrecarga mental.

Além disso – e este é um aspeto frequentemente ignorado nas discussões sobre organização doméstica – os espaços não utilizados representam desperdício. Pagamos por cada metro quadrado, seja sob a forma de renda ou de prestação de hipoteca. Se um quarto do apartamento não serve efetivamente nenhum propósito, trata-se de uma despesa desnecessária. E numa época em que os preços dos imóveis e das rendas nas cidades checas atingem valores recorde, poucos se podem dar ao luxo de pagar por um espaço que não utilizam.

Repensar estes lugares não implica necessariamente uma grande remodelação nem equipamentos caros. Muitas vezes basta uma decisão consciente – percorrer o apartamento com um olhar renovado e perguntar: o que é que realmente preciso aqui? O que está aqui apenas porque nunca me desfiz disso? O método popularizado pela organizadora japonesa Marie Kondo continua a ser relevante a este respeito: objetos que não trazem alegria ou não têm uma função clara não deveriam ter lugar numa habitação.

Ao mesmo tempo, é importante pensar em como utilizar melhor estes lugares – não necessariamente enchendo-os com mais coisas, mas dando-lhes um propósito. O espaço debaixo da cama pode servir como armazenamento bem pensado para roupa de época em caixas organizadas. A varanda pode ser um espaço funcional mesmo no inverno, para ervas aromáticas ou café da manhã, se estiver equipada adequadamente. O corredor pode ser acolhedor e organizado se contiver apenas o que realmente lhe pertence.

A dimensão ecológica deste tema não é negligenciável. Os objetos que acumulamos nos cantos esquecidos são, na maioria das vezes, coisas que comprámos por impulso, sem reflexão, ou coisas que guardámos "por precaução", mesmo sem precisar delas. Uma abordagem mais consciente da habitação conduz naturalmente a compras mais conscientes – menos aquisições, escolhas de melhor qualidade, menos desperdício. Não é por acaso que o movimento minimalista e o estilo de vida sustentável andam de mãos dadas.

Um bom exemplo da vida real é a situação que muitas pessoas conhecem: mudar-se para um novo apartamento. Nas primeiras semanas, tudo está no seu lugar, cada objeto tem uma função e o espaço parece organizado. Ao fim de um ano, a situação muda – chegaram mais coisas, surgiram mais cantos, apareceram mais lugares onde ninguém vai. O próprio ato de mudar força-nos a repensar os objetos, porque temos de pegar fisicamente em cada um e decidir se merece lugar no novo lar. É precisamente esta experiência que os especialistas em organização doméstica recomendam simular mesmo sem mudança – regularmente, uma vez por ano, percorrer todo o apartamento como se fosse novo.

Também se pode buscar inspiração nos princípios do feng shui, que embora tenham raízes na filosofia chinesa, a sua parte prática é surpreendentemente funcional mesmo para os céticos: a energia da casa (ou simplesmente dito – a atmosfera e o bem-estar) deteriora-se em todos os lugares onde há estagnação, desordem e passagem bloqueada. O espaço livre, a clareza e a intencionalidade na organização da habitação contribuem para uma sensação de tranquilidade e controlo sobre a própria vida.

Os lugares mortos num apartamento não são apenas um problema estético. São um sintoma – um indicador de como lidamos com o espaço, o tempo e os objetos à nossa volta. E tal como uma mente organizada se concentra melhor, também um apartamento organizado acalma a mente. Não porque a limpeza seja uma virtude moral, mas porque o ambiente em que vivemos nos molda muito mais do que geralmente reconhecemos. Cada canto esquecido é também uma oportunidade – para olhar novamente para o que queremos que o nosso lar seja, e dar um pequeno passo nessa direção.

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