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Toda a gente conhece esta situação. A pessoa chega a casa depois de um longo dia, atira o saco para o chão e de repente é invadida por uma sensação desagradável. Aquele canto do móvel gasto no corredor, que já lá está há um ano. A mancha no tapete para a qual os olhos se dirigem sempre que passa por ali. O degrau que range e a acorda todas as manhãs. No entanto, em casa de amigos ou num restaurante, não repara nessas coisas — e se reparar, não lhe incomoda nada. O que é que se passa afinal? Por que razão a nossa própria casa nos consegue irritar de uma forma que em nenhum outro lugar nos ocorreria?

A resposta a esta questão aparentemente banal mergulha fundo na psicologia da perceção, no funcionamento do nosso cérebro num ambiente que consideramos nosso, e naquilo que esperamos de um lar.


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O cérebro que se habitua — e depois deixa de se habituar

Os psicólogos descrevem este fenómeno como habituação — o processo pelo qual o cérebro deixa de reagir a estímulos que se repetem sem qualquer consequência. É precisamente por isso que, com o tempo, deixamos de perceber o tique-taque do relógio na sala ou o ruído distante da rua lá fora. O cérebro aprende que esses estímulos não são importantes e simplesmente filtra-os.

No entanto, a habituação não funciona de forma uniforme para todos os tipos de estímulos. As imperfeições visuais num ambiente que percebemos como "nosso" estão sujeitas a um processamento diferente. Investigações no campo da psicologia ambiental sugerem que quanto mais nos identificamos com um espaço, mais sensivelmente reagimos ao que nele "não encaixa". Em casa, encontramo-nos num estado de vigilância de propriedade — e a propriedade traz responsabilidade e, consequentemente, uma atenção redobrada às imperfeições.

Por outras palavras, num café, somos hóspedes. Ninguém espera que nos preocupemos com o estado do mobiliário. Em casa, somos os "gestores" — e o nosso cérebro sabe-o. Cada arranhão ou mancha torna-se assim um lembrete implícito de que ainda há algo por fazer, por reparar, por resolver. É esta a origem daquela estranha tensão que tantas pessoas descrevem quando chegam a casa e, em vez de descansar, se sentem imediatamente sobrecarregadas.

O psicólogo britânico e especialista em ambiente Dr. Sally Augustin sublinha repetidamente nos seus trabalhos que o lar é para o ser humano um espelho do seu mundo interior — e é precisamente por isso que as suas imperfeições são tão pessoais.

O efeito da incompletude e a carga mental do lar

Existe ainda outro mecanismo fundamental que desempenha um papel neste fenómeno — o chamado efeito Zeigarnik. A psicóloga russa Bluma Zeigarnik demonstrou na primeira metade do século XX que as tarefas inacabadas permanecem ativas na nossa mente muito mais tempo do que as concluídas. O cérebro literalmente "recorda-as" com maior intensidade, como se as tivesse constantemente abertas num separador.

Transpondo isto para o contexto doméstico: cada coisa que nos incomoda em casa e que não está resolvida é, do ponto de vista do cérebro, uma tarefa inacabada. Um azulejo partido na casa de banho, uma torneira enferrujada, uma pilha de coisas na cadeira do quarto — tudo isto são separadores abertos que consomem continuamente energia mental em segundo plano. E como em casa passamos tempo numa relativa tranquilidade, sem estímulos externos que desviem a nossa atenção para outro lado, esses "separadores" emergem à superfície muito mais facilmente do que em qualquer outro lugar.

Tomemos um exemplo concreto: a Jana trabalha num escritório em open space, onde há barulho, movimento constante de pessoas e toda uma espécie de agitação visual. Quando chega a casa, ao seu apartamento de outro modo acolhedor, apercebe-se de repente que um dos estores não funciona corretamente. No escritório, não teria reparado nisso nem em um mês. Mas em casa começa imediatamente a incomodá-la — e quanto mais tenta relaxar, mais repara no estore avariado. Não é porque a Jana seja excessivamente crítica ou ansiosa. É uma reação natural do cérebro a um ambiente que para ela é "lar" — um lugar onde tudo deveria estar em ordem.

Este fenómeno é também descrito num estudo publicado no Personality and Social Psychology Bulletin, que concluiu que as pessoas que vivem em ambientes domésticos desordenados ou inacabados apresentam níveis mais elevados de cortisol — a hormona do stress — do que aquelas cujo lar transmite uma impressão mais coesa.

Identidade, propriedade e o que esperamos de um lar

A chave para compreender este fenómeno reside também no que o lar representa para nós. Não é apenas um espaço físico — é uma projeção de nós próprios. Os psicólogos falam no conceito do eu alargado (extended self), descrito sistematicamente pela primeira vez pelo professor Russell Belk. As pessoas têm uma tendência natural para se fundir com as coisas que possuem — e o lar é o exemplo mais intenso disso. Como disse uma vez o arquiteto e teórico do espaço Juhani Pallasmaa: "O lar não é apenas um lugar, é um estado de espírito."

É precisamente por isso que, quando algo nos incomoda em casa, não o percebemos como um problema com o objeto, mas como um problema connosco próprios. Uma parede arranhada na sala não é apenas uma parede arranhada — é um sinal visual que diz: "Aqui descuidaste-te de algo." E este sinal, num espaço que faz parte da nossa identidade, é insuportavelmente alto.

Com pessoas estranhas ou em lugares públicos, este efeito não ocorre, porque aí não sentimos qualquer responsabilidade nem identificação. Uma parede arranhada num restaurante é uma imperfeição estética do restaurante, não nossa. O cérebro processa-a, regista-a e segue em frente. Em casa, essa leveza está ausente.

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O que fazer? Uma perspetiva prática sobre o cuidado com o lar

Assim que compreendemos por que razão a nossa própria casa nos provoca esta forma específica de tensão, abrem-se possibilidades interessantes para trabalhar com isso. Não se trata de ter uma casa perfeita ao estilo das revistas — isso é, por um lado, inatingível e, por outro, psicologicamente contraproducente, porque o perfeccionismo cria o seu próprio tipo de stress.

Trata-se antes de reduzir conscientemente o número desses "separadores abertos". Os especialistas em organização de espaços e em mindfulness recomendam unanimemente abordar o lar de forma gradual e com gentileza — não como um projeto que tem de estar concluído até sábado, mas como um espaço vivo que se vai desenvolvendo. Pequenos passos concretos têm um efeito psicológico maior do que grandes planos inacabados.

Também ajuda distinguir conscientemente entre o que realmente nos incomoda e o que é apenas um estado temporário. Nem tudo o que nos irrita num dado momento merece atenção imediata. Por vezes basta "fechar o separador" conscientemente — aceitar que a coisa existe e decidir deliberadamente que nos ocuparemos dela noutra altura. Esta abordagem, próxima dos princípios da terapia cognitivo-comportamental, consegue reduzir significativamente o nível de stress associado ao olhar quotidiano para a casa.

A qualidade das coisas que nos rodeiam desempenha também um papel interessante. As investigações mostram que as pessoas ficam menos stressadas com as imperfeições num ambiente que percebem como intencional e valioso. Por outras palavras, o desgaste de uma velha mesa de madeira, escolhida intencionalmente pelo seu caráter, tem um efeito diferente do de um laminado arranhado que ali parou por acaso. É uma das razões pelas quais nos últimos anos tem crescido o interesse por produtos sustentáveis e de qualidade para o lar — não se trata apenas do aspeto ecológico, mas de uma escolha consciente de coisas que têm sentido e valor.

Se procura inspiração para transformar gradualmente a sua casa num espaço que traz tranquilidade em vez de stress, pode ser útil começar pelo básico — pelos objetos do dia a dia que realmente usa. É precisamente nos detalhes, como os materiais naturais, o design funcional ou os produtos ecológicos para o lar, que se esconde uma parte surpreendentemente grande da forma como nos sentimos em casa.

Por que razão isto importa mais do que parece

Seria fácil descartar esta problemática como exagero ou preocupação desnecessária com pequenas coisas. No entanto, a influência do ambiente doméstico na saúde mental está hoje bem documentada. Investigações da UCLA e de outras instituições mostram repetidamente que o ambiente onde passamos mais tempo influencia profundamente o nosso humor, a qualidade do sono, a capacidade de concentração e o nível geral de stress.

O lar é o lugar onde deve ser possível descansar verdadeiramente — física e mentalmente. Se se transformar num espaço repleto de estímulos por resolver e tarefas inacabadas, perde a sua função fundamental. E isso manifesta-se também fora dele: as pessoas que não se sentem bem em casa são menos produtivas no trabalho, menos pacientes nos relacionamentos e lidam pior com o stress em geral.

Compreender por que razão em casa nos incomodam coisas que noutro lugar ignoraríamos não é, portanto, apenas uma curiosidade psicológica interessante. É a porta de entrada para cuidar melhor do espaço em que vivemos — e, consequentemente, de nós próprios. Uma abordagem consciente ao lar, a eliminação gradual das fontes de pequeno stress quotidiano e a escolha intencional das coisas que nos rodeiam são passos que têm um impacto real na qualidade de vida. E isso merece atenção.

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