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Existem alimentos que sobreviveram a séculos, alimentaram gerações inteiras e depois simplesmente desapareceram dos cardápios – não porque deixaram de ser especiais, mas porque foram ofuscados por novidades mais modernas. A pastinaca é um dos exemplos mais belos desse destino. Esta discreta raiz branca já foi um dos pilares da cozinha europeia, presente tanto nas sopas camponesas quanto nos banquetes reais, e ainda assim hoje raramente a encontramos no cesto do vizinho. No entanto, basta provar uma pastinaca bem preparada uma vez para que a pergunta de por que a esquecemos por tanto tempo se torne absolutamente inevitável.

A pastinaca (Pastinaca sativa) é originária da região do Mediterrâneo e da Ásia Central, e se expandiu pela Europa já na Antiguidade. Os romanos a consideravam uma iguaria e a Europa medieval dependia dela como uma das poucas fontes de sabor adocicado – o açúcar era então um luxo inacessível para a maioria da população. Apenas com a chegada das batatas da América do Norte no século XVI a pastinaca começou a perder gradualmente o seu lugar. As batatas eram mais rentáveis, mais nutritivas e mais fáceis de armazenar, e assim a pastinaca perdeu a sua posição privilegiada na cozinha europeia. Hoje, o seu cultivo e consumo estão a regressar lenta mas seguramente – não apenas graças à onda de interesse pelas "forgotten vegetables", ou seja, os legumes esquecidos, mas também porque as pessoas procuram novamente variedade e autenticidade nos seus pratos.


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O que a pastinaca esconde sob a sua discreta casca

À primeira vista, a pastinaca poderia confundir-se com a raiz de salsa – ambas são brancas, alongadas e têm um aroma semelhante. Mas basta prová-la e a diferença torna-se imediatamente evidente. A pastinaca tem um sabor significativamente mais doce, mais terroso e mais complexo, com um leve toque de avelã. Esta doçura aprofunda-se ainda mais após a primeira geada, quando parte do amido da raiz se converte em açúcares – por isso a pastinaca era tradicionalmente colhida no outono ou no inverno.

Do ponto de vista nutricional, a pastinaca é um verdadeiro tesouro. Contém uma elevada quantidade de fibra, que apoia a digestão saudável e influencia positivamente o microbioma intestinal. É uma rica fonte de ácido fólico, vitamina C e vitamina K, bem como de potássio, manganês e uma série de antioxidantes. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), 100 gramas de pastinaca crua têm aproximadamente 75 calorias, sendo que mais de um terço do seu conteúdo total é composto por hidratos de carbono – predominantemente na forma de açúcares naturais e fibra. Isto torna-a uma excelente escolha para quem procura um alimento energético, mas ao mesmo tempo natural e não processado.

Também é interessante notar que a pastinaca contém falcarinol e falcarindiol – compostos naturais do grupo dos poliacetilenos, que são objeto de investigação científica em relação aos seus potenciais efeitos anti-inflamatórios e imunomoduladores. Estudos publicados, por exemplo, na revista científica Journal of Agricultural and Food Chemistry sugerem que estas substâncias podem ter um efeito positivo no organismo humano, embora seja necessário sublinhar que a investigação nesta área ainda está em curso e as conclusões não são definitivas.

A pastinaca é também naturalmente sem glúten e adequada para uma grande variedade de dietas especiais – é indicada para veganos, vegetarianos e para quem segue uma alimentação paleo ou whole food. O seu naturalmente elevado teor de fibra e o seu baixo índice glicémico em comparação com as batatas tornam-na numa alternativa interessante para pessoas que monitorizam os níveis de açúcar no sangue.

Como cultivar pastinaca e onde encontrá-la? Nas lojas de produtos biológicos ou nos mercados de agricultores, encontrá-la-á geralmente do outono à primavera – precisamente na época em que mais nos falta vegetais frescos. Cada vez mais quintas ecológicas a incluem no seu sortimento, precisamente porque é resistente, pouco exigente em termos de cuidados e suporta bem o frio. Se tem um jardim, cultivar pastinaca é surpreendentemente simples – as sementes são semeadas na primavera diretamente no canteiro e a colheita chega no outono após as primeiras geadas.

A pastinaca de cem maneiras: da sopa às chips

A sua versatilidade é um dos maiores argumentos para devolver a pastinaca à sua cozinha. Diz-se que um bom cozinheiro reconhece a qualidade de um ingrediente pelo número de formas que consegue prepará-lo – e a pastinaca supera este teste com distinção.

A forma mais clássica de preparação é, naturalmente, a sopa. A sopa creme de pastinaca é um dos pratos mais simples e mais cativantes da cozinha de inverno. Basta cozinhá-la até ficar macia com cebola, alho e um pouco de gengibre, triturar até obter uma consistência homogénea e temperar com leite de coco ou natas. O resultado é uma sopa sedosamente suave, naturalmente adocicada, com um sabor reconfortante que aquece o corpo e a alma. Experimente adicionar um pouco de cúrcuma ou tomilho fresco – e uma receita simples transforma-se de imediato numa experiência sofisticada.

Mas a pastinaca definitivamente não se limita à sopa. A pastinaca assada é uma iguaria por si só – cortada em cunhas, regada com azeite, salgada e polvilhada com alecrim, transforma-se no forno a 200 °C em aproximadamente 25 minutos numa delícia caramelizada com bordos estaladiços e interior macio. Esta forma de preparação é especialmente popular na cozinha britânica, onde a pastinaca assada faz parte do tradicional almoço de domingo com rosbife.

Uma variante menos comum, mas absolutamente excecional, são as chips de pastinaca. Fatias finas de pastinaca, fritas ou assadas até ficarem douradas, são naturalmente mais doces do que as chips de batata e têm um sabor marcante e complexo. São uma excelente alternativa aos snacks clássicos e podem ser facilmente preparadas em casa – sem conservantes, sem açúcar adicionado e sem ingredientes desnecessários. Experimente temperá-las com sal marinho, páprica ou até canela e obterá uma gulodice surpreendentemente viciante.

A pastinaca funciona também muito bem como parte de purés e esmagados. Misturada com batata ou outros legumes de raiz, como cenoura ou aipo, cria um puré com um sabor suavemente adocicado, adequado como acompanhamento de carnes assadas ou como base de um prato vegetariano. A cozinha francesa gosta de combiná-la com manteiga e noz-moscada – o resultado é elegante, mas ao mesmo tempo simples.

Crua, a pastinaca é uma opção menos comum, mas interessante. Ralada numa salada com maçã, nozes e um molho de sumo de limão e mel, cria uma salada de inverno refrescante e cheia de contrastes – doce, ácido, crocante. Esta combinação pode parecer incomum, mas é precisamente este tipo de associação surpreendente de sabores que transforma um legume esquecido numa descoberta gastronómica moderna.

Vale a pena mencionar que a pastinaca se presta muito bem também a preparações fermentadas – o kimchi de legumes de raiz ou as palitos de pastinaca fermentados são uma excelente forma de enriquecer a alimentação com probióticos e ao mesmo tempo reduzir o desperdício alimentar. Como disse certa vez o chef britânico e defensor da cozinha sustentável Hugh Fearnley-Whittingstall: "Os legumes esquecidos recordam-nos que a comida não precisa de ser exótica para ser extraordinária."

Pastinacas frescas e várias formas de as preparar numa rústica mesa de madeira

Por que razão regressamos aos legumes esquecidos

O interesse pelos legumes esquecidos – ou seja, as espécies que foram substituídas pela agricultura industrial e pelas prateleiras padronizadas dos supermercados – não é apenas uma moda passageira. É parte de uma mudança mais ampla na forma como pensamos sobre alimentação, agricultura e sustentabilidade. Organizações como a Slow Food International chamam há muito a atenção para o facto de que a biodiversidade na agricultura é não apenas culturalmente valiosa, mas também ecologicamente necessária. O cultivo de espécies diversas de vegetais reduz a dependência de pesticidas, enriquece o solo e aumenta a resiliência de todo o sistema alimentar face às alterações climáticas.

Tomemos como exemplo uma família do campo da Boémia do Sul que decidiu regressar à horticultura tradicional e incluir no seu canteiro pastinaca, escorcioneira e topinambos. No início, os vizinhos eram céticos – por que cultivar algo que ninguém compra nas lojas? Mas após a primeira colheita e a primeira prova, a situação inverteu-se. Os vizinhos começaram a pedir sementes, um restaurante local manifestou interesse em fornecimentos regulares e o que começou como uma experiência pessoal tornou-se um pequeno projeto comunitário. Esta história não é excepcional – iniciativas semelhantes surgem por toda a República Checa e são prova de que o interesse por alimentos autênticos, locais e esquecidos está a crescer.

A pastinaca é também um símbolo de uma abordagem mais lenta e consciente da alimentação. Numa época em que estamos habituados à disponibilidade constante de tudo e a qualquer momento, os legumes sazonais com uma personalidade marcante obrigam-nos a adaptar-nos ao ritmo da natureza. Esperar pela primeira geada, colher no outono, cozinhar de acordo com o que cresce – são princípios que têm um significado profundo não apenas ecológico, mas também psicológico. As investigações em psicologia alimentar sugerem que cozinhar de forma consciente e intencional com ingredientes locais aumenta a satisfação com a comida e reforça o sentido de ligação à natureza e à comunidade.

Além disso, a pastinaca não requer nenhuma habilidade especial nem ingredientes exóticos. É acessível, tem um preço razoável e a sua preparação é intuitiva – consegue fazê-la tanto um principiante na cozinha como um cozinheiro experiente à procura de inspiração. Talvez precisamente por ser tão discreta e modesta, tantas pessoas ainda não lhe prestaram atenção. Mas aqueles que lhe dão uma oportunidade, geralmente voltam a ela – e não apenas pelo seu sabor, mas também por tudo o que está por detrás dele.

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