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A dor nas costas e o abdómen: uma ligação que a maioria das pessoas ignora

A dor nas costas está entre os problemas de saúde mais comuns da era moderna. A maioria das pessoas atribui-a a uma má postura ao sentar, a músculos sobrecarregados ou a discos intervertebrais desgastados. E, no entanto, cada vez mais se evidencia que a causa da tensão crónica nas costas pode estar escondida num lugar onde poucos a procuram – no abdómen. Esta ligação não é nenhuma teoria de medicina alternativa, mas um facto fisiológico bem documentado que vale a pena investigar a fundo.

Imagine uma mulher de meia-idade que sofre há anos de uma dor surda na região lombar. Fez fisioterapia, experimentou massagens, praticou yoga – com alívio temporário, mas sem melhoria duradoura. Só após visitar um osteopata que se focou no seu sistema digestivo e descobriu tensão crónica na área do intestino grosso é que a situação começou a mudar. Uma história de consultório que se repete cada vez com mais frequência.


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Por que o abdómen e as costas formam um conjunto funcional

O corpo humano não é um conjunto de partes isoladas – é um sistema interligado, no qual cada tecido, cada órgão e cada músculo influencia o que o rodeia. As costas e o abdómen estão ligados anatomicamente, nervosamente e fascialmente, ou seja, através do tecido conjuntivo chamado fáscia, que envolve músculos, órgãos e ossos e atravessa todo o corpo como uma rede contínua. Quando surge tensão ou disfunção em qualquer parte desta rede, o corpo compensa noutro local – e as costas são um dos lugares mais frequentes onde essa compensação se manifesta.

A coluna lombar está em vizinhança anatómica direta com a cavidade abdominal. Os rins, o intestino delgado e grosso, o pâncreas ou o útero – todos estes órgãos estão muito próximos das estruturas vertebrais. Através de fáscias e ligamentos, estão ainda diretamente ligados de forma mecânica aos músculos circundantes e à coluna vertebral. Se algum destes órgãos estiver cronicamente inflamado, sobrecarregado ou em má posição, pode literalmente "puxar" os tecidos circundantes e causar tensão que se manifesta como dor nas costas.

O sistema nervoso também desempenha um papel importante. As fibras nervosas viscerais – ou seja, aquelas que inervam os órgãos internos – partilham na medula espinal as mesmas vias que as fibras somáticas que inervam a pele e os músculos. Este fenómeno chama-se convergência viscero-somática e é responsável pela chamada dor referida. O cérebro simplesmente nem sempre consegue distinguir com precisão de onde vem o sinal, e o resultado é uma dor sentida nas costas, embora a sua origem esteja num órgão.

O sistema fascial do corpo foi descrito em detalhe, por exemplo, nos trabalhos do anatomista italiano Luigi Stecco, cuja investigação provou que a fáscia não é apenas um invólucro passivo, mas um tecido ativo capaz de transmitir tensão a locais distantes do corpo. Investigações publicadas no Journal of Bodywork and Movement Therapies confirmam repetidamente que a disfunção do sistema fascial na área abdominal pode contribuir diretamente para o surgimento de problemas musculoesqueléticos na região lombar.

Os músculos do sistema de estabilização profunda da coluna vertebral – concretamente o diafragma, os músculos do pavimento pélvico, o músculo transverso do abdómen e os músculos profundos das costas – formam em conjunto o chamado "core", ou seja, o centro do corpo. Estas estruturas trabalham em equipa e a sua coordenação é fundamental para a estabilidade da coluna. Se a parede abdominal estiver enfraquecida, sobrecarregada ou disfuncional, os outros músculos deste sistema têm de trabalhar horas extra – e as costas são as primeiras a sofrer.

Que causas abdominais estão por trás da tensão nas costas

Existe toda uma série de mecanismos concretos através dos quais o abdómen contribui para as dores nas costas. Compreender estes mecanismos é a chave para perceber por que o tratamento tradicional focado exclusivamente nas costas tão frequentemente não produz resultados duradouros.

As inflamações intestinais crónicas e a tensão dos órgãos viscerais estão entre os culpados mais comuns. A síndrome do intestino irritável, a doença de Crohn, a obstipação crónica ou a endometriose – tudo isto pode causar tensão permanente na cavidade abdominal, que se propaga para os tecidos circundantes. Um estudo publicado na revista Spine mostrou que os pacientes com problemas gastrointestinais crónicos apresentam uma incidência significativamente maior de dores na região lombar do que a população saudável.

Outro fator é o tecido cicatricial após cirurgias. Qualquer intervenção cirúrgica na área abdominal – seja uma apendicectomia, uma cesariana ou cirurgias laparoscópicas – deixa cicatrizes que podem causar aderências, ou seja, fusões de tecidos. Estas aderências limitam o movimento natural dos órgãos e das fáscias e podem criar forças de tração que se transferem para as costas. Muitos pacientes nem sequer percebem que as suas dores lombares, que surgiram anos após a cirurgia, podem estar diretamente relacionadas com uma cicatriz no abdómen.

O stress e a tensão psicossomática também desempenham um papel importante. O abdómen está em ligação direta com o sistema nervoso autónomo e é frequentemente chamado de "segundo cérebro" – graças ao sistema nervoso entérico, que contém mais de 500 milhões de neurónios. O stress crónico faz com que os músculos da parede abdominal se contraiam reflexamente, o diafragma perde o seu movimento natural e toda a área se "fecha". O resultado é, novamente, um aumento da tensão transferida para as costas.

Como diz o osteopata e terapeuta fascial Jean-Pierre Barral, pioneiro da osteopatia visceral: "Os órgãos não são estruturas passivas – são tecidos vivos e móveis, e se perderem a sua mobilidade, todo o corpo paga o preço." O trabalho de Barral na área da manipulação visceral é hoje reconhecido na medicina de reabilitação em todo o mundo e a sua abordagem começa a chegar gradualmente também às práticas de fisioterapia portuguesas.

Não se pode ignorar também o enfraquecimento do sistema de estabilização profunda como tal. O estilo de vida sedentário moderno, a falta de movimento e a sobrecarga unilateral levam a que o músculo transverso do abdómen – estabilizador fundamental da coluna – deixe de funcionar corretamente. A coluna fica então sem suporte suficiente por dentro e os músculos das costas são obrigados a compensar esse suporte com a sua própria força, o que leva à sua sobrecarga e tensão crónica.

Como trabalhar com o corpo como um todo

Se a dor nas costas persiste apesar do tratamento clássico, é altura de ampliar a perspetiva e focar-se em todo o sistema. Existem várias abordagens que podem ajudar.

A osteopatia visceral e a terapia fascial são métodos em que o terapeuta trabalha com suaves manipulações nos órgãos, nas fáscias e na sua mobilidade. Não se trata de manipulações dramáticas, mas de um trabalho delicado que liberta a tensão onde ela surgiu. Estas abordagens são especialmente adequadas para pessoas com histórico de cirurgias abdominais, problemas intestinais crónicos ou desequilíbrios hormonais.

A fisioterapia focada no sistema de estabilização profunda – ou seja, no funcionamento correto do diafragma, do pavimento pélvico e do músculo transverso do abdómen – é outro passo fundamental. Não se trata de fortalecer o abdómen com os clássicos "abdominais", mas de um trabalho suave e coordenado com a respiração e o envolvimento destas camadas musculares profundas. Métodos como a DNS (Estabilização Neuromuscular Dinâmica) ou o Pilates em formato terapêutico focam-se diretamente neste aspeto.

O olhar sobre o estilo de vida como um todo também é importante. Uma alimentação rica em fibra, uma ingestão adequada de água e a limitação de alimentos pró-inflamatórios contribuem para uma função saudável dos intestinos e reduzem a tensão visceral. Os ácidos gordos ómega-3, os alimentos fermentados e os chás de ervas com efeitos anti-inflamatórios – como o gengibre ou a cúrcuma – podem desempenhar um papel de apoio no apaziguamento geral do organismo. Um estilo de vida saudável não é apenas uma tendência da moda, mas uma ferramenta concreta para reduzir a carga inflamatória no corpo e, com ela, a tensão que se transfere para o aparelho locomotor.

Alimentos saudáveis e suplementos alimentares para reduzir a inflamação e apoiar a saúde intestinal

O movimento regular – especialmente aquele que envolve todo o corpo e promove a respiração natural – é insubstituível. Caminhar, nadar, yoga ou tai chi são atividades que libertam a tensão em todo o sistema fascial, apoiam a peristaltismo intestinal e ao mesmo tempo fortalecem o sistema de estabilização profunda. Não é por acaso que muitas pessoas descrevem uma melhoria significativa das dores nas costas após caminhadas regulares – o movimento literalmente "massaja" os órgãos internos por dentro.

O fundamental é aprender a perceber o corpo como um todo e não encarar a dor nas costas como um problema isolado. Os sintomas são apenas a ponta do icebergue – a causa real pode estar profundamente na cavidade abdominal, na história de cirurgias, nos hábitos alimentares ou no stress não gerido. Quanto mais cedo esta perspetiva se alargar – tanto nos pacientes como nos profissionais – maior é a probabilidade de um alívio real e duradouro.

As costas e o abdómen são, afinal, duas vozes de uma só canção. E só quando as ouvimos juntas é que começamos a compreender o que o corpo nos está a dizer.

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