A termorregulação nas mulheres funciona de forma diferente do que nos homens
Quase toda mulher que já trabalhou em um escritório de plano aberto conhece essa situação: enquanto o colega ao lado satisfeito tira o paletó e liga o ventilador na mesa, ela puxa o suéter sobre os ombros e pensa em silêncio se seria estranho trazer um cobertor para o trabalho. Não se trata de hipersensibilidade nem de psicologia – por trás desse fenômeno cotidiano estão biologia real e décadas de pesquisa científica ignorada.
As diferenças em como homens e mulheres percebem a temperatura estão bem documentadas. Ainda assim, os sistemas de ar-condicionado em escritórios ao redor do mundo continuam sendo configurados de acordo com padrões criados nos anos 1960, que levavam em conta exclusivamente o metabolismo de um homem médio de quarenta anos pesando aproximadamente setenta quilos. As mulheres simplesmente não faziam parte dessas equações. O resultado é que milhões de mulheres sentam todos os dias em seus escritórios e lutam contra um frio que seus colegas nem sequer percebem.
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Como funciona a termorregulação e por que o sexo importa
O corpo humano é um termostato perfeito. O cérebro monitora constantemente a temperatura corporal e a ajusta conforme necessário – dilatando ou contraindo os vasos sanguíneos, ativando a sudorese ou, ao contrário, o tremor muscular. Esse processo é chamado de termorregulação e ocorre de forma um pouco diferente em cada pessoa. Entre mulheres e homens existem diferenças sistemáticas com causas fisiológicas profundamente enraizadas.
A taxa metabólica basal – ou seja, a quantidade de energia que o corpo queima em repouso – é em média 20 a 30 por cento maior nos homens do que nas mulheres. Os homens geralmente têm mais massa muscular e, como os músculos são um tecido metabolicamente muito ativo, produzem mais calor. As mulheres, por outro lado, têm uma proporção maior de tecido adiposo, que isola melhor o calor, mas não o produz tanto. O resultado é que o corpo feminino simplesmente gera menos calor próprio e, portanto, é mais suscetível à sensação de frio em ambientes climatizados.
A isso se soma outro fator menos conhecido: a circulação sanguínea nas extremidades. O organismo feminino tende a priorizar, em ambientes mais frios, o suprimento de sangue para os órgãos vitais – coração, cérebro, pulmões – e a reduzir o fluxo sanguíneo para as mãos e os pés. É por isso que as mulheres tão frequentemente sofrem com mãos frias no escritório, mesmo quando a temperatura da sala parece aceitável. Esse mecanismo é evolutivamente vantajoso do ponto de vista da sobrevivência, mas em um escritório moderno com ar-condicionado ajustado para dezoito graus causa desconforto crônico.
O ciclo hormonal também desempenha um papel não negligenciável em tudo isso. Pesquisas mostram que a percepção de temperatura nas mulheres muda de acordo com a fase do ciclo menstrual. Na fase lútea – ou seja, na segunda metade do ciclo, após a ovulação – a temperatura corporal basal sobe aproximadamente meio grau Celsius, enquanto o limiar para a sensação de calor e frio se desloca. As mulheres na menopausa vivenciam o extremo oposto: ondas de calor alternadas com sensação de frio, que podem ser especialmente desconfortáveis em um escritório climatizado.
Uma perspectiva interessante é trazida por um estudo publicado na revista científica Nature Climate Change, que apontou diretamente que os padrões para o ar-condicionado em escritórios são sistematicamente definidos em favor dos homens. Os autores do estudo, Boris Kingma e Wouter van Marken Lichtenbelt, da Universidade de Maastricht, destacaram que a temperatura ideal para o metabolismo feminino é aproximadamente 2,5 graus mais alta do que para o masculino. Na prática, isso significa que se o termostato do escritório estiver ajustado para 21 graus Celsius, os homens estarão confortáveis, enquanto suas colegas precisariam de cerca de 23,5 graus.
O ar-condicionado do escritório como problema de gênero
Seria fácil descartar tudo isso como um pequeno inconveniente, mas os impactos são na verdade mais sérios. A sensação crônica de frio reduz a produtividade, a concentração e o bem-estar físico. Um estudo da Universidade Cornell descobriu que, ao aumentar a temperatura do escritório de 20 para 25 graus Celsius, o número de erros de digitação diminuiu 44 por cento e a produtividade geral aumentou 150 por cento. O conforto térmico, portanto, não é apenas uma questão de bem-estar – afeta diretamente o desempenho.
Tomemos um exemplo prático: Markéta trabalha como gerente de projetos em uma empresa de tecnologia em Praga. Todo verão ela leva para o trabalho um suéter extra, meias quentes e tem um pequeno aquecedor elétrico na mesa. Seu colega Martin senta a dois metros dela e no verão regularmente vem trabalhar de camiseta. Ambos trabalham na mesma sala, ambos são profissionais – ainda assim vivenciam ambientes completamente diferentes. Markéta estima que pensar em como se aquecer lhe custa uma quantidade considerável de energia mental todos os dias.
Essa história não é exceção. Uma pesquisa da organização britânica TUC (Trades Union Congress) mostrou que aproximadamente metade das mulheres que trabalham regularmente sente desconforto causado pelo frio excessivo no escritório. Ao mesmo tempo, os custos energéticos do resfriamento excessivo de edifícios de escritórios são enormes – estima-se que os escritórios nos EUA gastem mais de 10 bilhões de dólares por ano em resfriamento desnecessário para temperaturas mais baixas do que o confortável para a maioria dos trabalhadores.
O problema também tem uma dimensão ecológica. O resfriamento excessivo de edifícios é energeticamente dispendioso e aumenta desnecessariamente a pegada de carbono das empresas. Do ponto de vista da sustentabilidade, ajustar os termostatos para uma temperatura mais alta – digamos, um ou dois graus a mais – poderia reduzir significativamente o consumo de energia sem qualquer comprometimento do conforto da maioria dos funcionários. Como o físico alemão Ernst Ulrich von Weizsäcker certa vez observou: "Eficiência não significa menos – significa mais com menos." Isso se aplica precisamente também ao ar-condicionado.
O que você pode fazer – como indivíduo e como empresa
Mudar a configuração de todo um edifício de escritórios nem sempre está ao alcance de um indivíduo, mas existem maneiras de melhorar a situação – seja por meio de uma abordagem pessoal ou da cultura empresarial.
No nível pessoal, usar camadas de roupa ajuda. Materiais naturais como lã merino ou algodão orgânico regulam a temperatura corporal de forma mais natural do que sintéticos – mantêm o calor sem superaquecer durante o movimento. Camisetas funcionais de lã merino sob a camisa ou um suéter de fibras recicladas são soluções discretas, mas eficazes. Meias quentes e calçados fechados são um capítulo à parte, pois é justamente pelos pés que o corpo perde calor mais rapidamente do que a maioria das pessoas percebe.
A hidratação e a alimentação também são importantes. Bebidas quentes – seja chá de ervas ou água quente com limão – ajudam a manter a temperatura corporal de dentro para fora. Pausas regulares para movimento, como uma curta caminhada pelo corredor ou alongamento, ativam o metabolismo muscular e aquecem o corpo naturalmente. Refeições ricas em proteínas e gorduras saudáveis estimulam o metabolismo e ajudam o corpo a produzir mais calor.
No nível empresarial, a comunicação aberta é fundamental. Empregadores e gerentes de instalações devem levar o conforto térmico a sério como parte do bem-estar geral no trabalho. Configuração flexível do ar-condicionado em diferentes zonas do escritório, possibilidade de usar aquecedores pessoais ou ventilação natural em vez de resfriamento mecânico – todas essas são medidas que não exigem grandes investimentos, mas podem melhorar significativamente o ambiente para todos.
Várias empresas progressistas no norte da Europa e no Japão já adotaram os chamados sistemas de ar-condicionado por zonas, onde os funcionários em diferentes partes do escritório podem ajustar a temperatura de acordo com suas necessidades. Os resultados são inequívocos: a satisfação dos funcionários aumenta, o absenteísmo por doença diminui e a produtividade melhora. Não é utopia – é uma solução prática para um problema que foi ignorado por décadas.
Vale mencionar que o tema do conforto térmico no local de trabalho começa a penetrar na discussão mais ampla sobre inclusão e diversidade no ambiente de trabalho. Assim como as empresas aprendem a adaptar os locais de trabalho para pessoas com diferentes necessidades físicas, deveriam levar em conta também as diferenças fisiológicas entre os sexos. Um escritório que sistematicamente deixa a maioria de suas funcionárias com frio não é um ambiente neutro – é um ambiente configurado segundo um padrão muito específico de pessoa.
Existem também maneiras naturais de apoiar a própria termorregulação a longo prazo. Exercício regular e o desenvolvimento de massa muscular aumentam o metabolismo basal e ajudam o corpo a produzir mais calor. Ervas adaptogênicas como ashwagandha ou ginseng são utilizadas na medicina tradicional para melhorar a resistência ao estresse e às variações de temperatura, embora as evidências científicas nesse caso ainda sejam mistas. O sono de qualidade e uma dieta equilibrada rica em ferro – cuja deficiência é muito comum em mulheres e piora diretamente a sensação de frio – são a base para uma boa termorregulação.
Todo o problema do frio no escritório reflete, na verdade, um tema mais amplo: como os espaços públicos e de trabalho são projetados levando em conta a diversidade das pessoas que os habitam. Os padrões dos anos 1960 há muito deixaram de corresponder à realidade dos locais de trabalho modernos, onde as mulheres constituem quase metade da força de trabalho. A ciência afirma claramente que a termorregulação nas mulheres funciona de forma diferente da dos homens – e já seria mais do que hora de que os termostatos dos escritórios ao redor do mundo refletissem isso. Da próxima vez que você for pegar um suéter no trabalho enquanto o colega ao lado tira o paletó, saiba que não é questão de sensibilidade. É física, biologia e um sistema que simplesmente não levou você em consideração.