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# Por que a conexão online constante nos ensinou a temer o silêncio

Chegou uma mensagem. Ou melhor – não chegou uma resposta. O telefone está sobre a mesa, ecrã apagado, nenhuma notificação. E ainda assim, algo começa a acontecer – a mente acelera, o estômago aperta, os dedos automaticamente pegam no telefone para verificar se a mensagem foi mesmo enviada. Se o parceiro tem sinal. Se não aconteceu nada à mãe. Se a amiga não está zangada. E se...

Este cenário é cada vez mais familiar. Não se trata de preocupação excessiva ou fraqueza de carácter – trata-se de um fenómeno psicológico específico que os especialistas associam cada vez mais à nossa dependência da ligação digital constante. Chama-se ansiedade digital e, na era dos smartphones e das aplicações com confirmação de entrega, está a tornar-se um dos problemas epidemiológicos silenciosos da era moderna.


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Quando o silêncio começou a falar de outra forma

Há apenas duas décadas, era completamente normal uma pessoa simplesmente não estar disponível. Foi trabalhar, saiu de excursão, esqueceu o telefone fixo em casa. O silêncio era natural – não exigia explicação e ninguém daí retirava automaticamente cenários catastróficos. Hoje a situação é fundamentalmente diferente. Toda a gente traz no bolso um dispositivo que permite contacto imediato a partir de qualquer lugar e a qualquer hora. E esta possibilidade técnica transformou-se numa expectativa social – e, posteriormente, numa pressão psicológica.

A cultura da disponibilidade constante, designada em inglês como always-on culture, foi-nos convencendo progressivamente de que estar online significa estar bem, estar presente e estar em contacto. Não responder a uma mensagem em dez minutos começa a ser percepcionado como um sinal – de algo errado, de desagrado ou, em casos mais graves, de perigo físico. O cérebro, habituado ao feedback imediato, começa a sentir a sua falta de uma forma que se assemelha a sintomas de abstinência.

A psicóloga e investigadora Nancy Baym da Microsoft, que se dedica há muito tempo ao estudo das relações e das tecnologias, alerta para o facto de as ferramentas de comunicação digital terem mudado não apenas a forma como comunicamos, mas também aquilo que esperamos da comunicação. A imediatez tornou-se a norma e tudo o que foge a essa norma começa a ser lido como um desvio.

O resultado é um paradoxo: a tecnologia que devia trazer tranquilidade e a certeza de que os nossos entes queridos estão em segurança gera, ela própria, um novo tipo de medo. O medo do silêncio.

Como a ansiedade digital funciona na prática

Imaginemos uma situação concreta. A Jana, professora de trinta e três anos de Brno, descreve a sua noite habitual: envia uma mensagem ao parceiro que está a regressar do trabalho para casa. O percurso normal demora trinta minutos. Passada uma hora, nenhuma resposta. Jana verifica primeiro se a mensagem foi entregue – o visto azul está lá. Lida. E ainda assim, silêncio. Nesse momento, desencadeia-se um carrossel de pensamentos: Está zangado? Aconteceu um acidente? Porque é que não liga? Deve ser ela a ligar? E se ele se sentir mal?

Este monólogo interior não é excepção. É um exemplo ilustrativo de como os pensamentos ansiosos escalam naquilo que se designa por pensamento catastrófico – um padrão cognitivo em que a mente salta de um estímulo ligeiramente perturbador directamente para o pior cenário possível. Os psicólogos conhecem bem este mecanismo; o problema não é a sua existência, mas o facto de o ambiente digital o activar com muito mais facilidade e frequência do que antes.

Uma investigação publicada na revista Computers in Human Behavior demonstra repetidamente que as pessoas com maior utilização de redes sociais e aplicações de comunicação apresentam níveis de ansiedade mais elevados em geral – e em particular em situações em que estão desligadas do contacto digital ou quando os seus contactos não respondem. Este fenómeno costuma ser designado como FOMO (fear of missing out), mas a ansiedade digital decorrente da falta de resposta vai ainda mais longe – não é o medo de perder algo, mas o medo pela segurança e pelo estado dos outros.

É interessante notar que este tipo de ansiedade não afecta apenas pessoas com ansiedade social diagnosticada ou perturbação de ansiedade. Manifesta-se também em indivíduos psicologicamente estáveis que, no mundo offline, não exibiriam pensamento catastrófico. O próprio ambiente digital cria condições que favorecem a ansiedade – notificações, confirmações de leitura, estados "online", pontos verdes que indicam presença. Cada um destes elementos é um pequeno fragmento de informação que o cérebro processa e a partir do qual tira conclusões.

Como observou de forma certeira o psiquiatra americano e autor de livros sobre tecnologia e cérebro Daniel J. Levitin: "Os nossos cérebros não foram concebidos para um mundo onde cada silêncio dura apenas segundos. Aprendemos a interpretar o silêncio como um problema."

O medo pelos entes queridos como nova forma de controlo

É importante distinguir entre a preocupação natural com os entes queridos e o medo da indisponibilidade, que se torna crónico. Preocupar-se com a família e os amigos é saudável e humano. Mas se a incapacidade de contactar imediatamente uma pessoa próxima desencadeia sintomas físicos de ansiedade – palpitações, incapacidade de se concentrar noutra actividade, marcação compulsiva e repetida de um número – estamos perante algo diferente.

Nesse caso, deixa de ser preocupação e passa a ser controlo. Não no sentido negativo de manipulação intencional, mas uma necessidade psicológica de ter uma supervisão constante que oferece uma sensação de segurança. O problema é que essa sensação é ilusória – mesmo que o ente querido respondesse a cada cinco minutos, a ansiedade apenas se acalmaria temporariamente para regressar pouco depois. O mecanismo não reside na informação em si, mas na incapacidade de tolerar a incerteza.

Precisamente a intolerância à incerteza é, segundo vários psicólogos, um dos factores-chave no desenvolvimento de perturbações de ansiedade. E o mundo digital, paradoxalmente, reforça essa intolerância. Quanto mais habituados estamos a respostas imediatas, menos toleramos a sua ausência. É um círculo vicioso: a tecnologia oferece segurança, habituamo-nos a ela e, quando nos é negada, a ansiedade é maior do que alguma vez foi.

A pressão social complica ainda mais a situação. Em muitas relações – amorosas, de amizade e profissionais – desenvolveram-se regras não escritas sobre a rapidez com que se deve responder. Quem viola estas normas arrisca ser percepcionado como desinteressado, mal-educado ou até como um sinal de problemas relacionais. E assim chegamos a um mundo onde o silêncio deixou de ser neutro e se tornou uma mensagem.

Smartphone pousado com o ecrã voltado para baixo ao lado de lavanda, uma pedra e um relógio analógico

O que se pode fazer

A boa notícia é que a ansiedade digital não é uma fatalidade. É um padrão aprendido que pode – com consciência e paciência – ser reaprendido. Uma das estratégias mais eficazes é a construção intencional de limites na comunicação, tanto para si próprio como em relação aos outros. Isso significa comunicar abertamente sobre a rapidez com que cada um costuma responder e retirar ao silêncio a sua carga catastrófica. Se o parceiro sabe que a sua parceira passa por vezes horas sem telefone, a ausência de resposta deixa de significar automaticamente um problema.

Um passo seguinte pode ser o chamado detox digital – uma desconexão intencional e regular dos dispositivos digitais. Não tem de ser um retiro de uma semana nas montanhas sem sinal. Bastam janelas diárias sem telefone: uma hora à noite antes de dormir, a manhã de domingo, o tempo passado na natureza. Investigações, entre elas estudos publicados no Journal of Social and Clinical Psychology, mostram que apenas limitar o uso das redes sociais a trinta minutos por dia durante três semanas reduz significativamente os níveis de ansiedade e os sentimentos de solidão.

É igualmente útil trabalhar directamente com os cenários catastróficos. A terapia cognitivo-comportamental oferece uma técnica chamada reestruturação cognitiva – o questionamento consciente dos pensamentos negativos automáticos. Em vez de "Não responde, de certeza que aconteceu algo terrível", a pessoa recorda-se conscientemente: "Não responde, provavelmente está ocupada ou não tem o telefone à mão." Esta mudança de perspectiva, aparentemente simples, requer prática, mas resulta.

Para quem se reconhece mais fortemente na ansiedade digital, pode também ser útil trabalhar com um especialista. A saúde mental na era digital é um tema que está cada vez mais presente na consciência dos profissionais especializados portugueses, e os psicólogos e psicoterapeutas têm cada vez mais experiência com esta problemática.

Uma parte fundamental da mudança é também repensar a própria relação com o telefone. Trata-se de uma ferramenta – não de uma extensão da nossa identidade ou de uma tábua de salvação das relações. As relações não dependem de uma resposta chegar em cinco ou cinquenta minutos. A sua qualidade constrói-se na presença, nas conversas cara a cara, nas experiências partilhadas que nenhuma aplicação consegue substituir.

A dependência do telefone – ou mais precisamente, da ligação digital constante – é um fenómeno real, mas não é uma doença sem remédio. É antes um desafio que a nossa época nos trouxe e, como qualquer desafio, pode ser aceite com consciência e com a decisão de agir de forma diferente. Pode começar-se esta noite – pousar o telefone no outro lado da sala e descobrir que o silêncio não dói tanto quanto pensávamos. E que os nossos entes queridos estão bem mesmo quando não estão a escrever.

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