Especiarias que curam e como usá-las todos os dias
Todas as manhãs, em todo o mundo, desenrola-se um pequeno ritual quase invisível. Alguém deita uma pitada de curcuma numa caneca, outro rala um pedaço de gengibre para o chá, outro ainda polvilha canela sobre as papas de aveia. São gestos tão naturais que poucas pessoas se apercebem das raízes profundas — literal e figurativamente — que estão por detrás deles. As especiarias, durante milénios, não foram apenas uma questão de sabor. Foram moeda, remédio e objeto de guerras. E hoje, quando a ciência moderna se volta cada vez mais para os conhecimentos tradicionais, revela-se que as nossas avós e os antigos curandeiros tinham razão em muitos aspetos.
A ideia de que as especiarias podem curar não é nenhuma novidade da medicina alternativa. A tradição ayurvédica trabalha com curcuma e pimenta-preta há milhares de anos, a medicina tradicional chinesa coloca o gengibre no papel de um dos remédios mais universais e a canela já aparece nos antigos papiros egípcios. O que é novo, porém, é o crescente número de estudos científicos que confirmam, precisam e por vezes até surpreendentemente ampliam estas experiências. Vejamos quatro especiarias que merecem um lugar de honra não apenas no especieiro, mas também na alimentação quotidiana.
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Curcuma e gengibre – a dupla dourada com poder anti-inflamatório
Se existe uma especiaria que na última década conquistou o estatuto de superalimento, é sem dúvida a curcuma. O seu pó de um amarelo vibrante, obtido a partir do rizoma da planta Curcuma longa, contém um grupo de substâncias chamadas curcuminoides, dos quais o mais significativo é a curcumina. É precisamente a curcumina que é objeto de centenas de estudos científicos e as suas propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes são hoje consideradas bem fundamentadas. Segundo um estudo de revisão publicado na revista Foods, a curcumina modula comprovadamente as vias inflamatórias no organismo e pode contribuir para a prevenção de doenças crónicas, desde problemas cardiovasculares a doenças neurodegenerativas. Uma revisão detalhada das investigações sobre a curcumina está disponível na base de dados do National Center for Biotechnology Information.
O problema, porém, é que a curcumina é muito mal absorvida pelo trato digestivo. O corpo simplesmente degrada-a e elimina-a rapidamente, sem que tenha tempo de atuar de forma significativa. E é precisamente aqui que entra em cena a pimenta-preta — mas a isso chegaremos daqui a pouco.
A curcuma pode, aliás, ser incorporada na alimentação de forma surpreendentemente fácil. Não é preciso cozinhar caril indiano (embora essa seja, claro, uma excelente opção). Basta uma pitada no smoothie matinal, na sopa, no molho para salada ou no chamado "leite dourado", que é uma bebida ayurvédica tradicional feita com leite vegetal, curcuma, uma pitada de pimenta e uma gota de mel. O sabor é suave, terroso e agradavelmente reconfortante.
Ao lado da curcuma está o seu parente botânico — o gengibre. O rizoma da planta Zingiber officinale está presente nas cozinhas de todo o mundo há tanto tempo que deixámos de nos aperceber da sua excecionalidade. Contudo, o gengibre é uma das especiarias mais bem estudadas de todas. As suas substâncias ativas, sobretudo os gingeróis e shogaóis, têm comprovadamente efeitos anti-inflamatórios, antieméticos (contra as náuseas) e antioxidantes. O gengibre é um remédio clinicamente comprovado contra as náuseas da gravidez, ajuda nas náuseas após quimioterapia e pode aliviar a dor muscular após o exercício.
Uma das coisas que fascinam no gengibre é a sua versatilidade. O gengibre fresco tem um perfil mais picante e cítrico, o seco é mais quente e condimentado. Pode ser ralado para chás, sopas, marinadas, pães e sobremesas. Quem alguma vez experimentou um chá de gengibre caseiro — simplesmente uma caneca de água quente com algumas rodelas de gengibre fresco e um pouco de sumo de limão — sabe como pode atuar beneficamente numa garganta dorida ou num estômago inquieto.
É interessante que a curcuma e o gengibre funcionam muito bem também em combinação. Ambas as especiarias atuam como anti-inflamatórios, mas por mecanismos ligeiramente diferentes, pelo que os seus efeitos podem complementar-se mutuamente. Na cozinha asiática, aliás, são usados juntos desde tempos imemoriais — e, como se revela, não por acaso.
Canela, pimenta-preta e a arte das especiarias do dia a dia
A canela é uma especiaria que a maioria das pessoas associa a doces de Natal e vinho quente. O seu potencial, porém, vai muito além da mesa festiva. Existem dois tipos principais de canela — a canela-do-ceilão (Cinnamomum verum), considerada a canela "verdadeira", e a cássia (Cinnamomum cassia), que é mais comum e mais barata. Do ponto de vista dos efeitos na saúde, é importante conhecer esta diferença, pois a cássia contém uma quantidade significativamente mais elevada de cumarina, uma substância que em quantidades maiores sobrecarrega o fígado.
Mas o que oferece a canela? Sobretudo a capacidade de influenciar positivamente o metabolismo dos açúcares. Vários estudos clínicos sugerem que o consumo regular de canela pode contribuir para uma melhor sensibilidade à insulina e para a redução dos níveis de glicose em jejum. Para pessoas com estado pré-diabético ou com diabetes tipo 2, isto pode ser um complemento interessante — evidentemente não um substituto do tratamento, mas um elemento significativo do estilo de vida global. A Associação Americana de Diabetes ainda não recomenda a canela como tratamento padrão, mas também não rejeita o seu potencial.
A canela é, além disso, rica em antioxidantes — em alguns estudos comparativos supera mesmo o alho ou os orégãos. E o seu aroma? Esse tem um efeito comprovadamente positivo no humor e nas funções cognitivas. Basta lembrar como nos sentimos quando entramos numa cozinha onde se está a cozer uma tarte de maçã com um pouco de canela.
Na cozinha do dia a dia, a canela tem uma utilização surpreendentemente ampla. Não tem de ser apenas doce — na cozinha marroquina e do Médio Oriente, é habitualmente adicionada a carnes estufadas, sopas de lentilhas ou tagines de legumes. Uma pitada de canela no café ou no cacau confere à bebida profundidade e calor, sem a adoçar em excesso.
E finalmente a pimenta-preta — uma especiaria tão omnipresente que a maioria das pessoas a considera uma banalidade. No entanto, é precisamente a pimenta-preta que esconde uma das substâncias mais notáveis de todo o reino das especiarias: a piperina. Este composto alcaloide é responsável não apenas pela picância típica da pimenta, mas sobretudo pela sua capacidade de aumentar dramaticamente a biodisponibilidade de outras substâncias. A mais conhecida é precisamente a interação com a curcumina — um estudo publicado na Planta Medica demonstrou que a piperina aumenta a absorção da curcumina até uns incríveis 2000%. Sem uma pitada de pimenta, a maior parte da curcumina passa pelo trato digestivo praticamente sem ser aproveitada.
Mas a piperina não ajuda apenas a curcumina. Aumenta a absorção de toda uma série de nutrientes, incluindo vitaminas do grupo B, betacaroteno e selénio. Por si só, possui ainda propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias e, segundo alguns estudos, pode influenciar positivamente a digestão ao estimular a produção de sucos gástricos.
O conselho prático é simples: sempre que cozinhar com curcuma, adicione também uma pitada de pimenta-preta moída na hora. Isso não altera o sabor do prato, mas altera fundamentalmente o seu valor nutricional. É um daqueles casos raros em que um simples hábito culinário pode ter um impacto mensurável na saúde.
Como disse Hipócrates — e a frase repete-se tão frequentemente que se tornou um cliché, mas nem por isso perdeu a validade: "Que o alimento seja o teu remédio e o remédio seja o teu alimento." No caso das especiarias, isto aplica-se literalmente.
É claro que é necessário manter o bom senso. As especiarias não são um remédio milagroso e nenhuma pitada de curcuma substitui uma alimentação equilibrada, exercício físico, sono suficiente e, quando necessário, cuidados médicos. Mas como parte de uma abordagem ponderada à alimentação, a curcuma, o gengibre, a canela e a pimenta-preta podem desempenhar um papel verdadeiramente significativo. Não se trata de despejar montes de pós na comida na esperança de que todas as maleitas desapareçam. Trata-se de perceber que cozinhar no dia a dia é uma oportunidade — uma oportunidade de dar ao corpo não apenas energia, mas também substâncias que o ajudam a manter o equilíbrio.
Tomemos o exemplo da senhora Maria de Brno, que depois dos cinquenta começou a ter problemas nas articulações e inflamação generalizada no corpo. O médico recomendou-lhe uma dieta anti-inflamatória e, entre outras coisas, mencionou a curcuma com gengibre. Maria começou todas as manhãs com leite dourado, adicionava gengibre fresco às sopas e polvilhava uma pitada de pimenta sobre tudo o que continha curcuma. Passados alguns meses, notou que as articulações lhe doíam menos, dormia melhor e sentia-se globalmente mais vital. Não é um estudo científico sobre uma pessoa — é uma história que muitas pessoas conhecem, aquelas que decidiram prestar atenção ao que comem.
O que há de mais bonito em toda a história das especiarias é a sua acessibilidade. Não se trata de suplementos alimentares caros em cápsulas, não se trata de superalimentos exóticos transportados por via aérea do outro lado do mundo. Curcuma, gengibre, canela e pimenta-preta são especiarias que se encontram em qualquer loja, em qualquer mercado, em qualquer cozinha. Custam poucos cêntimos e duram meses. Basta começar a usá-las de forma consciente.
Para quem quiser ir um passo mais além, vale a pena investir em especiarias de qualidade, biológicas, sem aditivos nem conservantes. A diferença de sabor e de teor de substâncias ativas entre uma especiaria barata de desconto e um produto cuidadosamente processado é frequentemente marcante. A pimenta-preta moída na hora cheira e sabe de forma completamente diferente do pó pré-moído que ficou meses na prateleira. A canela-do-ceilão tem um perfil mais suave e complexo do que a cássia comum. E a raiz de gengibre fresca é incomparável com o pó seco — embora este também tenha o seu lugar.
Para concluir, vale ainda a pena mencionar um aspeto que é frequentemente esquecido nas discussões sobre alimentação saudável: a alegria de cozinhar. Não adicionamos especiarias à comida apenas para nos sentirmos melhor. Adicionamo-las porque, graças a elas, a comida cheira, sabe e dá prazer. A cor dourada da curcuma no prato, a frescura picante do gengibre no chá de inverno, a doçura reconfortante da canela nas papas de aveia matinais, a picância marcante da pimenta moída na hora sobre pão fresco com azeite — tudo isto são pequenas experiências sensoriais que tornam a alimentação quotidiana mais rica. E se, além disso, contribuem para a saúde, tanto melhor. As especiarias que curam não têm de ser um remédio amargo. Podem ser o elemento mais agradável de todo o dia.