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Existem abordagens terapêuticas que, à primeira vista, parecem teatro, mas que provocam nas pessoas reações emocionais profundas que não conseguem explicar racionalmente. A constelação familiar pertence precisamente a este grupo. Uns consideram-na uma ferramenta revolucionária de autoconhecimento, outros uma encenação pseudocientífica sem qualquer base verificável. O que está verdadeiramente por trás deste método, por que razão conquistou tantos adeptos em todo o mundo e por que razão desperta, ao mesmo tempo, tanta ceticismo?

A constelação familiar é um método terapêutico desenvolvido pelo psicoterapeuta e filósofo alemão Bert Hellinger ao longo das décadas de setenta e oitenta do século passado. Hellinger, que passou parte da sua vida como missionário em África e se formou em psicanálise, terapia gestalt e hipnoterapia, criou uma abordagem assente na convicção de que as pessoas não são indivíduos isolados, mas parte de sistemas maiores — sobretudo familiares. Estes sistemas têm, segundo ele, a sua própria dinâmica, as suas regras ocultas e desequilíbrios que se transmitem de geração em geração, sem que os seus portadores disso se apercebam.


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Como funciona a constelação familiar na prática

A própria sessão pode decorrer de forma individual ou em grupo — e é precisamente a forma grupal aquela que mais surpreende e, ao mesmo tempo, fascina. O cliente, que no contexto das constelações é denominado "cliente-representante" ou "protagonista", descreve brevemente o seu problema — pode tratar-se de padrões relacionais repetitivos, ansiedade inexplicável, problemas de saúde crónicos, sensação de alienação em relação à família ou estagnação profissional. O facilitador, ou seja, o guia do processo, pede então ao protagonista que escolha, de entre os participantes presentes no grupo, representantes para os diferentes membros da sua família — e por vezes também para conceitos abstratos como a doença, o destino ou a morte.

Estes representantes são posicionados no espaço de acordo com a intuição do protagonista, e não segundo um esquema predefinido. E então acontece algo que surpreende muitos dos presentes e os próprios representantes: pessoas que não sabem absolutamente nada sobre aquela família começam a sentir emoções, sensações corporais e impulsos de movimento que — como se acaba por verificar — correspondem às dinâmicas familiares reais. O representante do avô falecido pode sentir-se isolado e rejeitado. A representante da mãe pode sentir um peso no peito e o impulso de virar as costas aos seus filhos. O facilitador observa estas manifestações, conduz o diálogo e vai procurando a chamada "imagem de cura" — um posicionamento no qual a tensão se dissipa e o sistema como um todo parece harmonioso.

É precisamente esta parte do processo — as reações espontâneas dos representantes — que divide o método em dois campos. Hellinger denominou este fenómeno "consciência de campo" ou "alma da família", afirmando que os representantes se sintonizam com um campo de informação coletivo que transcende a consciência individual. Os críticos, por sua vez, apontam que se trata de uma combinação de sugestionabilidade, sinais sociais, dinâmica de grupo e efeito ideomotor — ou seja, pequenos movimentos inconscientes provocados pelas expectativas e pelo contexto da situação.

Vale a pena referir que fenómenos semelhantes foram estudados por cientistas fora do âmbito das constelações. Investigações na área da chamada cognição incorporada sugerem que o corpo reage a estímulos sociais e espaciais de formas que não percebemos conscientemente — o que poderia explicar parcialmente por que razão os representantes se comportam de maneira que ressoa com a história familiar do protagonista. Não é prova de um campo místico, mas também não é um truque trivial.

O que o método realmente faz ao ser humano

Para compreender por que razão a constelação familiar atrai centenas de milhares de pessoas por ano, é necessário afastar-se dos debates sobre o mecanismo e olhar para o que acontece ao nível da experiência. Muitos clientes descrevem que, após a sessão, compreenderam pela primeira vez por que razão se comportavam de uma forma que eles próprios não conseguiam explicar. Uma mulher que repetidamente procurava parceiros emocionalmente inacessíveis pode "ver" na constelação um padrão que remonta ao seu pai ou mesmo aos avós, que vivenciaram um trauma de guerra e não eram capazes de contacto emocional. Um homem que sofre de fadiga crónica e de um sentimento de inutilidade pode, durante o processo, "deparar-se" com um irmão esquecido que morreu em criança e cuja existência era tabu na família.

Estes momentos de reconhecimento — mesmo que se trate apenas de uma representação metafórica de convicções internas — têm um potencial terapêutico comprovável. A terapia narrativa e o trabalho com o sistema familiar são abordagens bem documentadas, cuja eficácia é confirmada por estudos revistos por pares. A constelação familiar trabalha temas semelhantes, mas através de uma forma dramaticamente diferente.

Tomemos como exemplo um tipo de situação real que os facilitadores descrevem com muita frequência: Jana, uma mulher de quarenta anos de Lisboa, foi a uma constelação de grupo com a sensação de que nunca conseguia aceitar ajuda dos outros. Qualquer manifestação de cuidado a irritava ou provocava vergonha. Na constelação, percebeu-se que a sua avó — órfã de guerra — se havia proibido severamente de aceitar qualquer coisa, para sobreviver numa época em que depender dos outros significava ser vulnerável. Este padrão passou para a mãe e depois para Jana. A perceção de que a sua reação não era uma falha pessoal, mas um mecanismo de sobrevivência herdado, trouxe a Jana um alívio que ela descreveu como "o primeiro fôlego depois de anos". A terapeuta recomendou então uma terapia individual de acompanhamento — e este é um ponto importante ao qual voltaremos.

A constelação familiar não trabalha apenas com a linha familiar direta. O método de Hellinger inclui também os chamados "movimentos de amor interrompidos" — situações em que o fluxo natural de afeto na família foi perturbado pela morte, rejeição, adoção, aborto ou outros eventos tabuizados. Estes movimentos interrompidos transmitem-se, segundo Hellinger, às gerações seguintes, que então inconscientemente repetem ou "concluem" aquilo que os seus antepassados não puderam vivenciar. Quer se aceite ou não esta interpretação, o trabalho com a história familiar e os seus traumas tem um lugar sólido também na psicologia convencional — por exemplo, no conceito de transmissão intergeracional do trauma, que é objeto de intensa investigação científica.

A controvérsia em torno do método não deriva, porém, apenas da questão da verificabilidade científica. O próprio Hellinger tornou-se, nos seus anos mais tardios, alvo de sérias críticas devido às suas declarações sobre o papel da mulher na família, sobre a homossexualidade ou sobre as vítimas de violência doméstica. Parte da sua obra tardia foi classificada como autoritária e dogmática, inclusivamente por especialistas que simpatizavam com o método das constelações. Esta controvérsia pessoal projetou-se sobre o próprio método, embora muitos facilitadores trabalhem hoje com as constelações de formas significativamente afastadas da abordagem original de Hellinger — integrando elementos de terapia sistémica, neurociência, traumatologia ou mindfulness.

"A constelação não é uma religião nem um dogma. É uma ferramenta, e como qualquer ferramenta, depende de quem a usa", afirma uma das principais facilitadoras europeias, que forma terapeutas em todo o continente. Esta observação capta o dilema com que se depara qualquer pessoa interessada: a qualidade de uma sessão depende da formação, da ética e da experiência do facilitador de forma muito mais acentuada do que nos métodos terapêuticos padronizados. Não existe um sistema de certificação unificado, não existe um código de ética vinculativo a nível global e as formações diferem em duração, conteúdo e qualidade. Este é um risco real que não pode ser ignorado.

Ainda assim, o interesse pelo método continua a crescer. Em Portugal e no Brasil existem dezenas de facilitadores ativos e as sessões de grupo estão regularmente esgotadas com meses de antecedência. Parte dos interessados são pessoas que passaram pela psicoterapia clássica e procuram uma perspetiva complementar. Outra parte são aqueles que, por diversas razões, não tiveram acesso à terapia tradicional ou a rejeitam. E outra parte são simplesmente pessoas curiosas, levadas pelo acaso ou pela recomendação de um amigo.

Para quem é então a constelação familiar adequada e para quem não é? Os especialistas que integram o método num quadro terapêutico mais amplo concordam geralmente que a constelação pode ser um complemento valioso de um trabalho terapêutico a longo prazo, mas não um substituto. Pessoas em crise psicótica aguda, com perturbações dissociativas não estabilizadas ou em perigo imediato devem procurar, em primeiro lugar, cuidados psiquiátricos ou psicológicos especializados. A constelação não é uma intervenção em crise nem um instrumento de diagnóstico.

Por outro lado, para pessoas que se sentem "bloqueadas" em padrões repetitivos e para quem a terapia clássica não trouxe alívio suficiente, a constelação pode oferecer uma perspetiva diferente — visual, corporal e sistémica ao mesmo tempo. As investigações ainda não são suficientemente amplas nem metodologicamente robustas para validar o método de forma inequívoca, mas estudos piloto — como as investigações publicadas nos países de língua alemã, onde o método tem a tradição mais longa — sugerem efeitos positivos, especialmente no domínio das relações familiares e da autoimagem.

A constelação familiar continuará provavelmente a ser um método controverso durante muito tempo. Situa-se na fronteira entre a terapia, o ritual e o teatro, e esta fronteira é desconfortável para todos os que procuram categorias bem definidas. A ciência ainda não consegue confirmá-la nem refutá-la completamente. As pessoas que a vivenciaram descrevem-na como um dos encontros mais intensos consigo próprias. As pessoas que a rejeitam veem perigo na aceitação acrítica de conceitos não científicos. Ambas as posições têm a sua lógica — e talvez seja precisamente por isso que a constelação familiar continua, na prática, a atrair tanta atenção, tantas questões e debates apaixonados.

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