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Por que passar tempo perto da água nos faz mais bem do que imaginamos

Existe algo quase mágico na forma como nos sentimos quando estamos à beira do mar, sentados junto a um lago de montanha ou simplesmente a ouvir o murmúrio de um riacho na floresta. A tensão abandona o corpo, a respiração aprofunda-se e a mente acalma-se de uma forma difícil de descrever por palavras, mas que todos conhecem. Não se trata de mera romantismo ou coincidência – a permanência junto à água tem efeitos fisiológicos e psicológicos comprovados, que os cientistas estudam com crescente intensidade. E os resultados das suas investigações são, no mínimo, fascinantes.

Os seres humanos sentem-se atraídos pela água desde sempre. As civilizações mais antigas surgiram junto a rios – a Mesopotâmia entre o Eufrates e o Tigre, o Egito ao longo do Nilo, a antiga Índia às margens do Indo. A água não era apenas uma fonte de subsistência, mas também um local de rituais, descanso e experiência espiritual. Este vínculo profundamente enraizado com o ambiente aquático não se perde no mundo moderno, apenas o esquecemos por vezes no meio das cidades, dos ecrãs e das intermináveis obrigações profissionais. Basta pouco – uma visita a um rio, umas férias à beira-mar ou um passeio em redor de um lago – e o corpo e a mente recordam imediatamente o que lhes falta.


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O espaço azul: o que acontece no cérebro e no corpo

O biólogo marinho e escritor britânico Wallace J. Nichols introduziu o conceito de "mente azul" (blue mind) para descrever o estado de consciência calmo e ligeiramente meditativo que a água evoca nas pessoas. No seu livro homónimo, resume os resultados de dezenas de estudos científicos e conclui que a proximidade da água ativa no cérebro as áreas associadas à recompensa, à empatia e à criatividade, ao mesmo tempo que suprime os centros responsáveis pelo stress e pela ansiedade. Não é uma metáfora – é neurociência.

As investigações mostram que contemplar uma superfície de água ou simplesmente ouvir o som de água corrente reduz os níveis de cortisol, a hormona do stress, e ao mesmo tempo estimula a produção de serotonina e dopamina. Estes neurotransmissores são fundamentais para a sensação de bem-estar, motivação e equilíbrio mental geral. Um estudo publicado na revista Health & Place concluiu que as pessoas que vivem perto da costa apresentam estatisticamente níveis mais baixos de problemas psicológicos do que os habitantes de regiões do interior, mesmo após considerar fatores socioeconómicos. Conclusões semelhantes são trazidas por investigações focadas em rios, lagos e outros ecossistemas de água doce.

É interessante notar que estes efeitos ocorrem surpreendentemente depressa. Não é necessária uma semana de férias à beira-mar – apenas vinte minutos passados na proximidade da água reduzem comprovadamente o nível de stress e melhoram o humor. Esta descoberta é fundamental numa época em que o stress crónico se tornou quase uma epidemia e as pessoas procuram formas de o combater sem medicamentos e sem necessidade de alterar radicalmente o seu estilo de vida.

O corpo físico também reage ao ambiente aquático de forma muito concreta. O ar marinho é rico em iões negativamente carregados, que se formam quando as ondas do mar se quebram. Estes iões penetram nos pulmões, melhoram a oxigenação do sangue e apoiam a função do epitélio ciliar das vias respiratórias. As pessoas com asma ou problemas respiratórios crónicos conhecem bem este efeito – junto ao mar simplesmente respiram melhor. A água salgada do mar tem ainda propriedades desinfetantes e atua favoravelmente sobre a pele, as articulações e as mucosas. O banho em água natural fortalece o sistema imunitário e endurece o organismo, especialmente quando a água é mais fria.

O movimento na água ou sobre a água é então um capítulo à parte. A natação está entre as atividades físicas mais completas que existem – envolve praticamente todos os grupos musculares, sem sobrecarregar as articulações como acontece na corrida ou noutros desportos terrestres. A natação regular melhora a condição cardiovascular, aumenta a capacidade pulmonar, fortalece o corsete muscular e contribui para a manutenção de um peso saudável. Não é por acaso que os médicos recomendam a natação a pessoas com dores nas costas, artrite ou após diversas lesões, como uma das formas de reabilitação mais suaves e ao mesmo tempo mais eficazes.

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A natureza junto à água como remédio para os tempos modernos

Os japoneses têm um belo conceito chamado shinrin-yokubanhos de floresta, ou seja, a permanência consciente na natureza como forma de terapia. Um princípio semelhante pode ser aplicado ao ambiente aquático, e os resultados são pelo menos igualmente convincentes. O potencial terapêutico da natureza junto à água é reconhecido por um número crescente de especialistas nas áreas da psiquiatria, psicologia e medicina geral.

Consideremos, por exemplo, a história de Markéta, uma designer gráfica de trinta e cinco anos de Praga, que durante vários anos lutou com o esgotamento e a ansiedade típicos da síndrome de burnout. O tratamento clássico – terapia, ajuste do ritmo de trabalho, aplicações de meditação – ajudava apenas parcialmente. A mudança chegou quando começou a ir todas as semanas ao rio Sázava, onde alugava um paddleboard e passava duas a três horas no rio. "Não pensava em nada", diz ela. "Simplesmente observava a superfície da água, ouvia os pássaros e tinha de me concentrar no equilíbrio. O cérebro finalmente descansou." Após três meses de saídas regulares, descreve uma melhoria significativa no sono, uma redução da ansiedade e o regresso da vontade de trabalhar. A sua experiência não é excecional – histórias semelhantes são cada vez mais comuns nos últimos anos.

A água tem também uma capacidade única de evocar a presença, esse estado que nos círculos de meditação se chama mindfulness. Um rio que corre ou um mar agitado não oferecem nada de estático – cada onda é diferente, cada reflexo de luz na superfície é novo. O cérebro, habituado a saltar constantemente entre o passado e o futuro, ancora-se naturalmente no momento presente. Esta capacidade da água de atrair a atenção sem a esgotar é designada pelos especialistas como "atenção restauradora" (restorative attention) e é objeto de investigação no âmbito da teoria da restauração da atenção, formulada pelos psicólogos Rachel e Stephen Kaplan.

O som da água desempenha um papel absolutamente fundamental em todo este processo. O cérebro avalia os sons da água corrente ou a chapinhar como não ameaçadores, pelo que reage com relaxamento. Ao contrário do ruído do trânsito ou das vozes humanas, que exigem processamento ativo e avaliação de potencial perigo, o som da água acalma o cérebro e induz um estado de ondas alfa – esse estado ligeiramente onírico e relaxado na fronteira entre a vigília e o sono, que é extraordinariamente regenerador. É por isso que as gravações de som de chuva, de um riacho ou de ondas do mar são tão populares como auxílio para adormecer ou meditar.

Não é sem interesse que arquitetos e urbanistas começam a utilizar ativamente estes conhecimentos no planeamento de cidades e espaços públicos. Fontes, elementos aquáticos em parques, revitalização de margens fluviais – tudo isto são esforços conscientes para trazer os efeitos benéficos da água para o ambiente urbano quotidiano. Cidades como Copenhaga, Amsterdão ou Viena são exemplos inspiradores neste domínio, onde o acesso à água constitui uma parte integrante da qualidade do espaço público. As investigações da Agência Europeia do Ambiente confirmam repetidamente que o acesso a chamadas áreas azuis e verdes nas cidades se correlaciona diretamente com o bem-estar geral dos habitantes.

Existe também uma fascinante ligação entre a permanência junto à água e a criatividade. Muitos artistas, escritores e pensadores descreveram a água como um ambiente onde os pensamentos fluem com maior liberdade. Friedrich Nietzsche escrevia nos Alpes junto a lagos, Ernest Hemingway amava o mar, Frédéric Chopin encontrava inspiração nas margens dos lagos franceses. Não é apenas um clichê literário – os neurocientistas confirmam que o estado relaxado da mente induzido pela proximidade da água é o terreno ideal para o pensamento divergente, ou seja, o tipo de pensamento que está na origem de avanços criativos e de ligações inesperadas.

Para quem não pode viajar regularmente até ao mar ou a lagos de montanha, as boas notícias são que mesmo superfícies de água menores têm os seus benefícios. Um lago urbano, um parque com fonte ou mesmo um lago de jardim podem proporcionar parte destes benefícios. Um estudo da Nova Zelândia publicado na revista Landscape and Urban Planning demonstrou que mesmo uma curta pausa passada junto a uma superfície de água artificial num parque urbano tem um impacto positivo mensurável no humor e na sensação de bem-estar. A água simplesmente funciona – independentemente de ser o Mar Mediterrâneo ou uma fonte no centro da cidade.

A questão, portanto, não é se a permanência junto à água nos faz bem. Isso está hoje suficientemente comprovado pela ciência. A questão é antes: por que razão nos proporcionamos tão pouco isso na vida quotidiana. O português médio passa cada vez mais tempo dentro de edifícios, em frente a ecrãs e em ambientes distantes da natureza – e, portanto, da água. No entanto, o contacto regular com o ambiente aquático não é um luxo, mas uma das necessidades básicas do organismo humano, profundamente codificada na nossa história evolutiva.

Seja uma caminhada matinal ao longo de um rio, uma excursão de fim de semana a uma barragem, um mergulho num lago ou simplesmente ouvir conscientemente a chuva cair do lado de fora da janela – cada contacto com a água é um investimento na própria saúde e bem-estar. Numa época em que se fala cada vez mais sobre a prevenção do burnout, a saúde mental e um estilo de vida sustentável, torna-se evidente que algumas das soluções mais eficazes são surpreendentemente simples e acessíveis. Basta dirigir-se ao riacho mais próximo e sentar-se ali por um momento. A água faz o resto.

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