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A família moderna parece diferente do que os contos de fadas ou as velhas fotografias na cristaleira nos mostravam. Os pais vivem a centenas de quilómetros dos seus próprios pais, os avós estão noutra cidade ou noutro continente, e às vezes simplesmente não estão presentes de todo. As crianças crescem sem o cheiro característico dos bolinhos da avó, sem as histórias do avô da oficina, sem aquela segurança especial que só alguém com uma vida inteira de experiências consegue transmitir. E, no entanto, precisamente esta relação — intergeracional, lenta, sem pressa — é uma das que mais molda o caráter de uma pessoa, mais do que muitas vezes nos apercebemos.

Foi precisamente deste vazio que nasceu um fenómeno que sociólogos e terapeutas familiares acompanham com crescente interesse: a adoção voluntária do papel de avós substitutos, ou seja, pessoas que se tornam avós para crianças com quem não têm qualquer laço de sangue. São chamados avós adotivos, avós de bairro ou avós do coração — e o seu número tem crescido significativamente nos últimos anos.


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Por que as famílias de hoje precisam de avós, mas não os têm por perto

A realidade demográfica é simples. Segundo dados do Český statistický úřad, a distância média entre o local de residência dos pais e dos avós aumentou significativamente nas últimas décadas. As famílias jovens mudam-se à procura de trabalho, de um parceiro, de uma habitação melhor. Os avós ficam onde viveram a vida toda, ou mudam-se eles próprios para comunidades de idosos longe dos netos. A isto acrescentam-se situações em que os avós faleceram demasiado cedo, em que estão gravemente doentes, ou em que as relações familiares estão tão deterioradas que o contacto não é possível nem desejável.

O resultado é uma geração de crianças que têm pais, amigos, professores — mas a quem falta alguém que esteja fora da pressão quotidiana da educação e das obrigações escolares. Alguém que simplesmente se senta, conta histórias e não tem pressa. Os avós desempenhavam tradicionalmente o papel de uma espécie de reserva emocional — um lugar onde a criança podia refugiar-se, ser mimada e, ao mesmo tempo, aprender subtilmente o que a vida realmente implica. Este papel não é substituível por outro adulto da mesma forma — é uma relação com uma dinâmica específica, que tem o seu próprio ritmo e profundidade.

As investigações mostram que as crianças que têm uma relação próxima com os avós apresentam maior resiliência emocional e melhor capacidade de empatia. Um estudo britânico publicado no Journal of Family Psychology concluiu que uma relação intergeracional de qualidade está diretamente correlacionada com níveis mais baixos de ansiedade em crianças em idade escolar. Não é surpreendente — os avós trazem perspetiva, paciência e a capacidade de relativizar problemas que os pais, no meio do agitado quotidiano, simplesmente não têm capacidade de oferecer.

Do outro lado da equação estão os idosos. Estes enfrentam, na sociedade moderna, a sua própria forma de isolamento — os seus filhos estão ocupados, os netos estão longe, e após a reforma o seu círculo social reduz-se dramaticamente. A solidão dos idosos é reconhecida na Europa como um dos maiores problemas de saúde pública da atualidade. A Organização Mundial de Saúde chega mesmo a compará-la, nos seus efeitos para a saúde, a fumar quinze cigarros por dia. Neste contexto, a ideia dos avós adotivos faz sentido de ambos os lados — é uma relação que enriquece e beneficia todos os envolvidos.

Imaginemos, por exemplo, a Lenka, uma mãe de trinta e três anos com dois filhos de Brno, cujos pais vivem na Eslováquia e cujos sogros vivem no Canadá. Os netos e os avós veem-se duas vezes por ano; as videochamadas são regulares, mas não conseguem substituir a presença física. Há dois anos, a Lenka conheceu, através de um centro comunitário local, a senhora Věra, uma reformada de setenta e dois anos cujos próprios filhos não têm filhos e vivem no estrangeiro. Hoje, a senhora Věra vai buscar as crianças ao jardim de infância todas as sextas-feiras, ajuda a cozinhar e tornou-se parte integrante da vida familiar. «Eu sou finalmente avó e eles têm finalmente uma avó», diz a senhora Věra de forma simples — e nessa frase está, na verdade, toda a essência deste fenómeno.

Como funciona na prática a avosidade adotiva

O surgimento espontâneo de relações como a de Lenka e a senhora Věra é a forma mais comum — mas não a única. Nos últimos anos têm surgido por toda a Europa programas especializados que ligam famílias sem avós a idosos que procuram um contacto significativo. Na Alemanha existe o projeto Leihoma (literalmente «avó emprestada»), em França existem iniciativas semelhantes sob a alçada de centros comunitários para idosos. Na República Checa, este tipo de ligação acontece ainda de forma maioritariamente informal — através de comunidades de vizinhança, comunidades religiosas, associações locais ou precisamente centros comunitários.

O princípio não é criar uma família substituta no sentido jurídico do termo, mas construir uma relação verdadeira e autêntica. A família e o idoso vão-se conhecendo progressivamente, passam tempo juntos e encontram organicamente o seu próprio ritmo. Alguns partilham o gosto por cozinhar juntos ou por jardinagem, outros leem histórias às crianças ou vão dar passeios. O importante é que a relação não é construída sobre a obrigação nem sobre um enquadramento formal — cresce naturalmente, como qualquer relação verdadeira.

Para as famílias que pensam neste tipo de ligação, é bom ter em mente alguns aspetos práticos:

  • Comece devagar — um primeiro encontro num ambiente neutro (café, parque) reduz a pressão para ambas as partes
  • Comunique de forma aberta — limites e expectativas claros evitam mal-entendidos
  • Dê tempo à relação — a confiança constrói-se gradualmente, especialmente nas crianças
  • Seja flexível — o estado de saúde do idoso ou a situação familiar podem mudar
  • Valorize as pequenas coisas — é precisamente nelas que reside o valor destas relações

Este projeto aparentemente simples encerra também momentos delicados. Os pais têm de confiar numa pessoa que não é sua familiar e confiar-lhe o mais precioso — o tempo passado com o seu filho. Os idosos, por sua vez, têm de estar preparados para que a relação tenha as suas regras definidas primariamente pelos pais. A chave está na transparência e no respeito mútuo — e na disposição para aceitar que esta relação é diferente da avosidade biológica, mas não é por isso menos valiosa.

O que esta tendência nos diz sobre a transformação da sociedade

Por detrás do fenómeno dos avós adotivos existe algo mais profundo do que uma simples necessidade prática de apoio ou companhia. É um sintoma de um desejo mais amplo de comunidade, de coesão intergeracional que desapareceu da vida moderna. A urbanização, a individualização, a mobilidade do mercado de trabalho — são todas forças que afrouxaram os laços tradicionais. E as pessoas procuram-nos novamente, desta vez de forma consciente e ativa.

Psicólogos e sociólogos falam das chamadas famílias escolhidas — redes de pessoas próximas que não estão unidas por laços de sangue, mas que partilham valores, tempo e cuidado mútuo. Este conceito, originalmente associado sobretudo às comunidades LGBTQ+, estende-se hoje a um contexto muito mais amplo. Famílias sem avós, idosos sem netos, pessoas sem irmãos — todos procuram formas de preencher os espaços relacionais que a sociedade moderna deixou vazios.

É interessante observar como esta tendência se reflete também no que as pessoas compram e em como vivem. O interesse por um estilo de vida lento e consciente — por atividades que unem gerações, por competências tradicionais como cozinhar, jardinagem ou trabalhos manuais — está a crescer. São precisamente as atividades que as avós e os avôs transmitiam tradicionalmente, e que hoje muitas famílias procuram conscientemente como forma de abrandar e aprofundar as relações mútuas. Não se trata apenas de nostalgia — trata-se de uma escolha consciente de um ritmo de vida diferente.

As investigações mostram consistentemente que o contacto intergeracional beneficia ambas as partes — crianças e idosos — em áreas que vão desde o desenvolvimento cognitivo até à saúde física. Estudos da Universidade de Stanford focados no envelhecimento confirmam repetidamente que os idosos com uma vida social rica e relações interpessoais significativas vivem mais tempo e com maior qualidade. E para as crianças vale o mesmo que as gerações anteriores à nossa sabiam intuitivamente: que crescer ao lado de uma pessoa mais velha, sábia e paciente é um dom difícil de substituir.

Talvez seja precisamente aqui que reside uma das respostas à questão de como voltar a unir o que parece estar para sempre separado — famílias dispersas pelo mundo, idosos fechados nos seus apartamentos, crianças à procura de raízes. Não através de grandes gestos ou soluções sistémicas, mas através de encontros simples e semanais à mesa, no jardim ou a ler uma história antes de dormir. Os avós e avós adotivos não são um substituto para o que falta — são a prova de que a necessidade humana de comunidade é mais forte do que qualquer distância ou estrutura familiar.

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