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Talvez nunca tenha reparado que se senta à mesa de forma diferente quando come sozinho e de forma diferente quando tem convidados. Ou que em alguns restaurantes parece que a comida desaparece do prato mais depressa do que em casa. Não é coincidência nem magia – é o espaço em que nos movemos, a luz, as cores, os materiais e a forma como as coisas estão dispostas à nossa volta. O feng shui da sala de jantar e, de forma geral, todo o tema de como o ambiente influencia os nossos hábitos alimentares é uma área que une o ensinamento milenar chinês com a ciência comportamental moderna. E os resultados são surpreendentemente consistentes.

O feng shui – literalmente "vento e água" – é a antiga arte chinesa da disposição harmoniosa do espaço, baseada na crença de que o fluxo de energia, o chamado chi, influencia o bem-estar, a saúde e as relações das pessoas que vivem ou trabalham num determinado local. Embora os céticos rejeitem este ensinamento como esoterismo, muitos dos seus princípios encontram apoio na psicologia ambiental moderna. As investigações mostram repetidamente que o ambiente físico tem uma influência comprovada em quanto comemos, com que rapidez comemos e quão satisfeitos nos sentimos após as refeições.


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A ciência e a tradição falam a mesma língua

O professor Brian Wansink da Universidade Cornell passou décadas a investigar como o ambiente influencia o nosso comportamento alimentar. As suas conclusões, resumidas nomeadamente no livro Mindless Eating, são diretas: comemos mais quando há desordem à nossa volta, ruído, luz demasiado intensa ou, pelo contrário, demasiado ténue, e menos quando nos sentimos relaxados e confortáveis. O feng shui trabalha precisamente com estas variáveis – com a disposição do mobiliário, com o fluxo de luz, com as cores das paredes, com o facto de termos uma vista ou as costas voltadas para a parede durante as refeições.

Não é por acaso que o fast food aposta tradicionalmente em cores vivas de vermelho e laranja, assentos de plástico duro e música alta. Estes elementos encurtam deliberadamente o tempo passado no restaurante e estimulam o consumo rápido. Em contrapartida, os restaurantes caros optam por iluminação suave, estofos macios, tons terrosos quentes e música calma – porque sabem que os clientes que se sentem bem ficam mais tempo, pedem mais e voltam. O feng shui da sala de jantar em ambiente doméstico funciona com base no mesmo princípio – apenas com a diferença de que o objetivo não é vender mais, mas comer de forma mais consciente, com maior prazer e em quantidades adequadas.

Imagine, por exemplo, uma família que mudou a mesa de jantar de um canto escuro da divisão para mais perto da janela, se livrou da pilha de papéis e objetos desnecessários sobre a mesa e adquiriu simples individuais de linho em vez de uma toalha de plástico. A mudança pareceu cosmética, mas o resultado foi evidente: as refeições duraram mais tempo, a conversa à mesa tornou-se mais animada e a atmosfera geral transformou-se de uma obrigação apressada num ritual agradável. Isto não é teoria – são histórias partilhadas por milhares de pessoas que decidiram conscientemente prestar atenção ao seu espaço.

Um dos princípios fundamentais do feng shui é a chamada posição de comando – a mesa ou o lugar para sentar deve ser posicionado de forma a que a pessoa fique de costas para a parede e com vista para a porta ou para toda a divisão. Este princípio deriva de um instinto ancestral de segurança: quando vemos o que se passa à nossa volta, sentimo-nos protegidos e relaxados. E uma pessoa relaxada come mais devagar, percebe melhor os sinais de saciedade e aprecia mais a refeição. A psicologia moderna confirma isto – o stress e a sensação de ameaça ativam o sistema nervoso simpático, que, entre outras coisas, perturba a digestão e leva a um comportamento alimentar mais impulsivo.

As cores, a luz e os materiais não são apenas estética

As cores desempenham um papel maior no contexto alimentar do que possa parecer. A cor azul está associada na natureza a alimentos venenosos ou estragados, pelo que naturalmente suprime o apetite – esta é, aliás, a razão pela qual o fast food não a utiliza. O vermelho e o laranja, pelo contrário, estimulam o apetite e aceleram o metabolismo. O verde e os tons terrosos evocam a natureza, a frescura e a calma – e são precisamente estas as cores que o feng shui mais frequentemente recomenda para a sala de jantar. O amarelo quente pode estimular a comunicação e a alegria, enquanto o roxo demasiado intenso ou o cinzento escuro podem sobrecarregar o espaço e torná-lo desagradável para refeições regulares.

A luz é outro fator fundamental. A luz natural do dia é ideal para a sala de jantar – não só porque melhora o humor e ajuda a regular o ritmo circadiano, mas também porque permite perceber melhor as cores e texturas dos alimentos. Comida que tem boa aparência sabe melhor – não é um clichê, mas um fenómeno psicológico comprovado. À noite, é aconselhável passar para uma iluminação quente e suave, que acalma o sistema nervoso e cria condições para uma refeição lenta e consciente. Um estudo publicado na revista Environment and Behavior mostrou que as pessoas em espaços com iluminação suave consomem os alimentos mais lentamente e, ao mesmo tempo, avaliam o seu sabor como melhor.

Os materiais e as texturas que nos rodeiam durante as refeições também não são negligenciáveis. O feng shui privilegia materiais naturais – madeira, pedra, cerâmica, têxteis de linho ou algodão. Estes materiais têm a sua energia específica, mas também uma dimensão completamente prática: são agradáveis ao toque, absorvem naturalmente o ruído e criam uma sensação de calor e segurança. As superfícies duras e brilhantes, os plásticos artificiais e os metais frios, pelo contrário, arrefecem o espaço e podem contribuir para uma sensação de inquietação. Se estiver a pensar em mobilar a sala de jantar, a escolha de uma mesa de madeira, louça de cerâmica e têxteis naturais não é apenas estética, mas também funcional.

O tamanho dos pratos e das travessas também desempenha um papel importante. As experiências de Wansink provaram repetidamente que as pessoas consomem significativamente mais comida quando a servem em pratos maiores – o cérebro avalia a quantidade relativamente ao tamanho do recipiente. Embora o feng shui não fale diretamente sobre o tamanho dos pratos, a sua ênfase na disposição consciente da mesa e na estética do serviço leva naturalmente a conclusões semelhantes: uma mesa bem posta com louça de tamanho adequado convida a uma abordagem mais consciente à alimentação.

O som é outro fator frequentemente subestimado no contexto alimentar. A música alta e rápida acelera comprovadamente o ritmo das refeições, enquanto uma melodia lenta e calma ou o silêncio o retardam. O feng shui recomenda separar a sala de jantar de fontes de ruído e influências perturbadoras – a televisão, conversas em voz alta ou computadores de trabalho à mesa estão entre os maiores inimigos de uma alimentação consciente. Não é apenas uma questão de etiqueta – é uma questão de saúde. Quando comemos distraídos, o cérebro não percebe os sinais de saciedade com rapidez suficiente, e o resultado é um excesso alimentar de que nem nos apercebemos.

Como disse uma vez o escritor Michael Pollan: "Come comida. Não demasiado. Principalmente plantas." Este conselho simples é mais fácil de concretizar num espaço que naturalmente convida a essa abordagem – onde não há caos, onde nos sentimos seguros e onde nada nos pressiona para a rapidez nem para um comportamento impulsivo.

A aplicação prática destes princípios não tem de ser complicada nem dispendiosa. Basta começar com alguns passos: retire da mesa tudo o que não pertence à refeição – telemóveis, controlos remotos, revistas, documentos de trabalho. Certifique-se de que a mesa está limpa e arrumada antes de cada refeição. Se possível, acrescente uma planta viva ou um pequeno vaso com flores frescas – a natureza traz energia vital ao espaço e, ao mesmo tempo, uma calma estética. Invista numa boa iluminação regulável e, se a situação o permitir, mova a mesa para mais perto da janela ou pelo menos reoriente-a de forma a que pelo menos um dos comensais fique de costas para a parede e de frente para a divisão.

O feng shui da sala de jantar também dá ênfase à limpeza e à fluidez do espaço. Não deve haver mobiliário em excesso – a energia precisa de circular livremente, tal como as pessoas na divisão. Uma sala de jantar sobrecarregada com decorações desnecessárias, armários grandes ou pilhas de objetos parece opressiva e não favorece o relaxamento. A simplicidade e a leveza são fundamentais. Menos objetos no espaço significa menos ruído visual, e portanto mais espaço para uma verdadeira experiência da refeição.

Também é interessante a perspetiva sobre a colocação de espelhos. O feng shui recomenda tradicionalmente espelhos na sala de jantar como forma de "duplicar a abundância" à mesa – simbólica e praticamente, porque o espelho amplia opticamente o espaço e traz mais luz para a divisão. No entanto, as investigações modernas introduzem uma nuance: um estudo publicado no Journal of the Academy of Marketing Science descobriu que as pessoas que se veem num espelho durante as refeições consomem menos alimentos pouco saudáveis, porque o espelho aumenta a autoconsciência e a consciência das escolhas. Um espelho na sala de jantar pode, portanto, ser um instrumento de alimentação mais consciente – desde que esteja colocado de forma adequada e não cause perturbação.

Toda esta abordagem – quer a chamemos feng shui, psicologia ambiental ou simplesmente habitação consciente – parte de uma ideia simples: o ambiente que criamos, por sua vez, cria-nos a nós. A sala de jantar não é apenas um espaço funcional onde se reabastece energia. É um lugar onde todos os dias nos encontramos connosco próprios, com as pessoas que amamos e com a comida que nos nutre. Dedicar atenção, cuidado e intenção a este espaço é um dos passos mais simples e, ao mesmo tempo, mais eficazes para uma vida mais saudável e satisfatória.

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